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Remetente: Rodrigo
Data: 22/03/2010
Cidade: Ipatinga / MG
Idade: 29 anos
Religião: Católica
Escolaridade: Superior em andamento
Sabemos onde esta a Igreja de Cristo, o que não sabemos é onde ela não esta.
Santo Eusébio de Cesárea
Queria começar dizendo que não me expressei bem em minha primeira e relapsa missiva. Estava muito apressado quando escrevi – e nisso se inscreve um erro – tendo em vista que o assunto é da maior importância. Espero melhor articular nessa presente.
Bem, quanto aos atributos que o Sr me deu ao longo de toda carta, creio que o Sr não errou hora nenhuma em meus adjetivos, pois de fato não sou virtuoso e nem leal, embora carregue penosamente esses dois sobrenomes que não escolhi para mim, mas os herdei. Bem que eu gostaria de encarná-los com perfeição, ma espero pacientemente que Deus me conceda antes de minha morte por honrá-los. Agora, quanto a não ser católico como o Sr se referiu a mim, digo que nisso o Sr se engana. Diga-me porque não fui ou não sou católico. Se ser católico consiste em negar evidências históricas, de fato eu não sou. Mas para minha imensa alegria, não é essa a exigência que essa santa e venerável Igreja me faz. Felizmente a Igreja não me manda confundir amor com ilusão, nem defesa da fé com negação de fatos ou com ataque cegos. A Igreja é santa por demais em sua história para precisar esconder o que nela aconteceu de reprovável. Alias, o Sr tenta me dizer que a Igreja não errou e diz que Cristo garantiu isso: me diga onde Cristo disse isso (acho que esse é mais um ponto de interpretação – as portas do inferno não prevalecerão contra ela, não quer dizer isenção total de erros e desacertos). Na ânsia de perfeição negamos Deus (Conmark). Jesus fora negado porque alguns religiosos de sua época não suportaram ver Deus encarnado e pendido numa cruz. Você se esqueceu que a cabeça da serpente será esmagada, mas não sem revidar? Esqueceu-se que o calcanhar será mordido? O inferno não ira prevalecer, foi isso o que Jesus disse, mas não que não ira atentar contra Igreja e mesmo que ira atingi-la. O Sr divide as coisas assim: os filhos da Igreja (os que erram ou que podem errar) e a Igreja em si (que é sempre pura e imaculada). Agora lhe pergunto: o que é ou quem é a Igreja? Se me responder essa questão controversa e difícil (inclusive para os pais da Igreja) então me permitirei dizer algo a mais sobre essa questão.
Quando li sua resposta pensei sinceramente se deveria responder, se valeria a pena continuar, se eu não estaria respondendo mais ao ego do que ao amor e a fé. E ao perceber também que vocês, assim como os membros da montfort (alias vocês são associados?), parecem as vezes brincar, usando de sarcasmos e ironias, desqualificando os outros, como se a defesa da fé fosse a ultima razão e a primeira seria a propria glória. Mas ao fim, percebi que o assunto foi desfocado e não respondido e que era justo que voltássemos a ele.
Falamos muito de ortodoxia, mas ao contrário dos orientais, por vezes não cremos que a ortodoxia não é uma questão apenas acadêmica, mas sobretudo de vida reta. A ortopraxia, ou seja, o andar corretamente, o agir com retidão, é por assim dizer a condição ontológica da fé imaculada. Por isso é evidente constatar o que os ortodoxos pensam: “que o altar é reflexo da teologia e que a teologia é medida pela vida e a oração da Igreja”. É fácil, então, perceber o porque nossas missas se tornaram ora um show, ora um desfile de culturas indígenas e afros, quando não são reduzidas a uma reunião politizada-marxista, ou então, numa repetição mecânica e fria cheia de racionalismo. Nossa liturgia latino-romana há muito esta desequilibrada e inconstante, isso pelo fato de que tornamos nossa teologia um arranjo de conceitos e logismos racionais herdados de um iluminismo que nos impregnou. Incrível, mas o altar da tradição bizantina permanece o mesmo de sempre. Será porque? Por que são herét
icos? Cismáticos? Nem teologia da libertação, nem teologia humanista, nem carismática, nem da prosperidade, vemos entre os orientais (sobretudo ortodoxos), e quando há um aqui e ali querendo imitar o “avanço” teológico dos ocidentais são vistos com muitas reservas. Isso meu caro pelos desvirtuamentos sérios que tais tendências provocam. Conseqüentemente o altar oriental se mantêm livre dessas novidades tão distorcidas de que estamos transbordando.
O senhor se coloca como coerente, mas julgo que coerência ao seu ver é ser repetitivo numa idéia que se tem. Um processo vicioso como a dos fariseus. Coerência como sinônimo de continuidade numa mesma idéia, ainda que errada. Bem, essa parece ser a tática dos comunistas. E como disse um de seus lideres: uma mentira repetida até o infinito se torna com o tempo, uma verdade, ou ainda, usando as palavras de Cipriano, “costume sem a verdade não passa de erro inveterado”. Isso é o que me entristece: é perceber que isso se repete também no âmbito eclesial. As pessoas tendem a negar verdades que agridem aquilo que elas tem como puro e sagrado. E para preservar isso preferem negar ou distorcer os fatos. Por isso muito me admirou quando o venerável papa João Paulo II pediu perdão pelos erros históricos cometidos pelos filhos da Igreja. É preciso ter coragem e humildade para se fazer isso. Seria melhor negar, ou ao menos fingir que nada houve que precisasse ser confessado e reparado.
O Sr assim se dirige a mim: Ou você é um ignorante que pensa ser sábio, ou age de má fé, pretendendo nos convencer com argumento tão chulo. Dizer que os cismáticos permaneceram fiéis ao que ensinaram os pais da Igreja é uma mentira colossal!
Ora, o primado de Pedro é uma verdade mil vezes repetida pela tradição católica, inclusive por padres santos da Igreja grega, dentre os quais – para citar um apenas – São Gregório Nisseno:
“A memória de Pedro que é a cabeça dos Apóstolos é celebrada e junto com ele [Pedro] os outros membros da Igreja são glorificados, e a Igreja de Deus [no próprio] é consolidada. Este, juntamente à prerrogativa concedida a ele pelo Senhor é pedra firme e solidíssima sobre a qual o Senhor fundou sua Igreja” (apud Franca Leonel. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1928, p. 531. O negrito é meu).
Não me lembro de haver lhe pedido tal referência. Aliás, não compreendi bem porque fez referência a esse ponto. O primado de Pedro não é contestado pelos católicos ortodoxos e sim a suposta supremacia. Nem mesmo o grande São Gregório Magno (desconsidere o pleonasmo magno/grande) quis ser chamado e visto como o juiz de toda Igreja, o máximos pontífices , ao contrário, reprovou essa glória como sendo, não divina, mas humana e mundana. Ele se auto-proclamou servo dos servos de Deus. Esse é o cerne e o sentido do bispo de Roma, do legítimo sucessor de São Pedro.
Como o Próprio São Pedro disse que há palavras difíceis que não podem ser interpretadas por um apenas, mas por um concílio, pela colegialidade. Por isso as fontes dos santos padres são tão necessárias de serem consultadas. A maximização do ministério petrino é muito perceptível ao longo da história, entre tempos de uma indefinição do poder temporal com o poder espiritual. Sem adentrar em detalhes, mas dizendo em linhas gerais, que por condições históricas e existências, quase que para a sobrevivência do império ocidental, o papa foi – após o abandono do império ocidental pelo imperador – pouco a pouco substituindo, ou melhor, ocupando o lugar vacante do imperador que estava refugiado devido as ameaças bárbaras. Isso até o ponto de o papa ser aquele que coroava a realeza. Se antes o papa se dobrava a voz “divina” imperial, que por sinal era a voz da convocação conciliar, agora vemos a realeza, o governo, o mundo se dobrando frente àquele que será intitulado erroneamente como o Summus Pontifex e Summus Pontifex Ecclesiae Universalis (títulos condenados por São Gregório Magno frente as pretensões do Patriarca Grego, João).
Por fim, com Idelbrando (São Gregório VII), vemos a ascensão do poder papal, seu apogeu, justamente num episódio com o Imperador do Sacro Império Romano-Germanico, quando Henrique IV se dobra diante sua autoridade. Ali esta um fato emblemático que dá ao papado um novo rumo e ele se torna definitivamente uma monarquia. E essa mudança de curso é estranho a vivência da Igreja primitiva.
Frente a isso não posso deixar de lhe interrogar: “Quando se passou a exigir uma jurisdição ecumênica, ou seja, universal do bispo de Roma?”
Essas exigências de jurisdição universal e subserviência do episcopado (que são legítimos sucessores dos apóstolos e nisso iguais a Pedro) estão marcadas pelas disputas e interesses mundanos dos quais mascaramos com a beleza do evangelho nas palavras de Cristo. Não há dúvida, porém, que o bispo de Roma e a Igreja de Roma gozam de um grande carisma que substitui uma das mais importantes funções do imperador, o de trazer a paz e a unidade. Ainda que em certos momentos da história, homens como Rodrigo Bórgia (Alexandre VII) trouxeram intrigas e divisões. A Igreja de Roma quando preside no Amor como uma mãe une a todos. Porém, quando se torna apegada aos valores e lógicas desse mundo caduco com determinações de domínio e orgulhoso causa inúmeras divisões e guerras. E não apenas Roma, mas todas as outras veneráveis Igrejas. E Ironicamente aquela Igreja que era vista como o estandarte da ortodoxia começa a declinar na sua fé reta como o próprio apostolo Pedro, que antes fora elogia do pelo Senhor e estava cheio de coragem e disposição e depois se tornou um traidor e negou o Mestre. Mas minha esperança é essa: que ao final Pedro (como um verdadeiro líder) chore por sua fraqueza, por seu desvio, por seu erro e se torne um arauto em definitivo e morra por Amor a Cristo. Mesmo São Cipriano que tem muito em conta a Igreja de Roma e o papa, e que eleva sua voz na defesa da primazia de Pedro, acaba por dizer: “De fato, ninguém, aqui, se constitui bispo dos bispos, ninguém faz pressão junto aos colegas com tirânico terror... Olhemos só ao juízo de nosso Senhor Jesus Cristo, só ele tem o poder de nos confiar o governo da Igreja e só ele há de julgar os nossos atos”. E continua numa conclamação excepcional que o sr parece não apenas desconhecer, como também discordar: “Com paciência e doçura, salvaguardamos o AMOR sincero, a honra do nosso COLEGIO, o vinculo da fé, a concórdia sacerdotal”. E mais, muitos outros comprovam a dimensão de que a unica Igreja de Cristo não é a de Roma, mas é o conjunto, a unidade mística das Igrejas, como está explícito. Embora Tertuliano honre e louve a venerável Igreja de Roma - muitos outros o fizeram - com seu testemunho de ortodoxia naquela época, isso não desqualifica as outras Igrejas que são tão santas e católicas como a Igreja de roma.
Meu caro as Igrejas do oriente precisam de Roma, do papa, da unidade, de um pleroma, e Roma, de igual forma, precisa do oriente, do seu zelo, sua raiz. Eu sonho com a unidade e rezo para que ela aconteça. Não que todos voltem a Roma, mas que todos, inclusive Roma, se voltem fielmente para Cristo.
Você faz uma outra acusação sem se respaldar e sem dizer do que esta falando:
...a Igreja cismática se afunda em doutrinas heréticas, contrárias à sagrada tradição, a exemplo do protestantismo. São mazelas gravíssimas que sua desonestidade partidária fez questão de ocultar.
Estou muito curioso por saber quais são essas heresias contrarias a tradição... eu posso, infelizmente, não por ser mau católico, te listar muitos e graves distanciamentos da Igreja de Roma da tradição, tais como: filioque, a mudança do decálogo, poder temporal da Igreja, imposição do celibato ao clero secular, missas novas (com tudo o que tem direito), racionalismo teológico, limbo (que agora foi corrigido) etc
E mais:
Todo católico verdadeiro deve defender a Igreja de Nosso Senhor das calúnias que injustamente lhe são imputadas. Você, pelo contrário, ergue-se em favor dos hereges e cismáticos vociferando mentiras contra a Igreja Católica.
Sim, é verdade que sou chamado a defender minha Igreja de calunias e injustiças (que são muitas despejadas pelos meios de comunicação e pela frente cientifica iluminista), mas não sou chamado a encobertar seus erros pregressos. É preciso ter coragem para amar a Igreja mesmo com suas mazelas. Amar uma Igreja apenas santa e imaculada é fácil, difícil é amá-la como Cristo a amou e por ela se entregou, ainda que ela não mereça esse sacrifício. A Igreja chamada ortodoxa é também ela legitima Igreja, e portanto, esposa de Cristo, negar isso é seguir um desejo perverso de hegemonia. Não há um documento sequer, depois do evento de 1054, da hierarquia - tanto romana como bizantina - católica que desqualifique a catolicidade uma da outra. Você chama os ortodoxos de cismáticos e heréticos e se diz seguir fiel do papa, enquanto esse (Bento XVI) e seus predecessores os chama de irmãos. Você não segue ao papa, mas a sua própria vontade que desejaria que a Igreja de roma desqualificasse a t
odos que não obedecem ao seu formato de Igreja.
Não vou me delongar muito mais, pois segue extensiva essa missiva. Mas gostaria que não imputasse os erros da divisão apenas aos ortodoxos. E nessa sua empreitada lançando mão de argumentos não sustentados, tente ir nos sagrados autores dos primeiros séculos, como Eusébio e etc. Isso é falta de caridade, de compromisso com a verdade histórica. Me expressei mau na primeira carta porque apenas apontei erros como se a Igreja de Roma fosse apenas aqueles pontos citados (cai assim no mesmo erro que vocês), sendo que, ela não é isso apenas. A Santa Igreja Católica Apostólica Romana é uma venerável Igreja, cujo heroísmo e glória é reconhecido por todas as Igrejas. Mas apesar disso não há de se negar seus erros imputando-os a outros.
Termino, então, com as iluminadas palavras de Bento XVI, acerca da Igreja:
“ Se eu me declaro por um partido, este se torna, por isso mesmo, meu partido. Ora, a Igreja de Jesus não é minha, mas sempre a sua Igreja. A essência da conversão consiste em que eu já não procure meu partido, com meus interesses e gostos, mas me entregue às mãos do Cristo e me torne seu, me torne membro do seu corpo, que é a Igreja. Procuremos ilustrar este ponto um pouco mais detalhadamente. Os coríntios vêem no cristianismo uma teologia religiosa interessante que corresponde a seus gostos e expectativas. Escolhem aquilo que lhes agrada e o escolhem sob uma forma que lhes é simpática. Quando, porém, a vontade própria é determinante,, já se deu a cisão, porque os gostos são muito contrários entre si. Desta escolha ideológica pode surgir um clube, um circulo de amigos, ou um partido, mas não a Igreja que supera as oposições entre os homens e os uni na paz de Deus...”
BIBLIOGRAFIA
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http://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/08QUESTAOFILIOQUE.html
http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0627
RESPOSTA
Rodrigo,
Salve Maria.
Preparava-me para responder sua réplica, quando me deparei com uma carta de conteúdo similar no site Montfort. E, para minha surpresa, o remetente era você.
Embora seus sofismas e contradições tenham sido claramente demonstrados na resposta dada pelo professor Orlando Fedeli, você parece não se contentar com a derrota e nos escreve novamente em defesa dos cismáticos “ortodoxos”.
Além de se proclamar infiel à Igreja Católica, você advoga em favor do cisma distorcendo absurdamente os escritos patrísticos, só para ver vitoriosas suas conclusões partidaristas.
E você inicia sua réplica lamentando-se pela relapsa missiva anterior. A pressa o teria prejudicado na escrita, levando-o ao erro em um assunto de suma importância.
Sua série de graves equívocos não é produto da pressa ao escrever. Acusar a Igreja de erros e negar a jurisdição universal dos Papas não é algo que se faça por causa de uma ligeireza na escrita. Você é infiel assumido. Por isso defende erros contra a Fé.
Todo católico tem a obrigação de reconhecer e de se submeter ao poder supremo do Papa. A jurisdição universal do Papa é dogma católico. Quem a rejeita deixa de ser católico.
Em sua nova missiva você contesta o primado de jurisdição do Papa. Nega explicitamente um dogma da Igreja Católica. E, apesar dessa grave recusa, se confessa católico. Enquanto rejeitar a supremacia jurisdicional do bispo de Roma, recusando dar anuência a essa verdade de Fé necessária para a salvação, sua confissão de católico será sempre falsa.
Você nem crê mais na indefectibilidade da Igreja. Questiona a referência onde Cristo disse que a Igreja seria sempre infalível, permanecendo imune às máculas do erro e do pecado. Diz que a promessa de Cristo – “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” – não significa que a Igreja não cometerá erros. Pelo visto sua fidelidade aos pais da Igreja também está ruindo. Para alguém que diz prezar tanto pelo ensino patrístico, você passa bem distante da tradição com essa interpretação pessoal, típica de protestante.
O sentido correto dessa promessa de Cristo consta nas fontes primitivas dos pais da Igreja, que você não consultou, preferindo dar um chute que favorecesse suas conclusões partidárias.
Ignoremos sua interpretação sem valor e consultemos as fontes realmente fidedignas.
Comecemos por Orígenes: “São portas do inferno todos os vícios espirituais na ordem sobrenatural e que são opostos às portas da justiça” (Homilia 1 in Matthaeum, 16 apud Santo Tomás. Catena Aurea).
São Jerônimo: “Eu tenho por portas do inferno os pecados e os vícios ou também as doutrinas heréticas, que seduzem os homens e os levam ao abismo” (op. cit.)
Rábano: “Também são portas do inferno os tormentos e seduções dos perseguidores e as obras más e as palavras néscias dos incrédulos, porque somente servem para ensinar o caminho da perdição” (op. cit.).
Com base nesses textos de autoridade inquestionável e reunidos por Santo Tomás em sua Catena Áurea, entende-se perfeitamente que a promessa de Cristo é uma garantia de que os vícios espirituais, os pecados, as doutrinas heréticas, os tormentos, as seduções, as obras más e palavras néscias, não prevalecerão sobre a Igreja de Pedro. Ou seja, nem mesmo os pecados pessoais dos membros da Igreja podem diminuir sua irredutível pureza ou comprometer sua perene indefectibilidade. É o que explica outro texto primitivo da Igreja:
“Segundo a promessa de Cristo, a Igreja apostólica de Pedro permanece pura de toda sedução e protegida de todo ataque herético, acima de todos os governos, bispos e sobre todos os primados das igrejas, em seus pontífices, em sua completíssima fé e na autoridade de Pedro. E quando algumas igrejas são marcadas pelos erros de alguns de seus indivíduos, somente a Igreja reina sustentada de um modo inquebrantável, impõe silêncio e fecha a boca dos hereges. E nós, a não ser que estejamos enganados por uma falsa presunção da nossa salvação, ou tomados do vinho da soberba, confessamos e pregamos juntamente com ela a verdade e a santa tradição apostólica em sua verdadeira forma” (Cirilo, thesaurus de sancta et consubstantiali Trinitate).
Veja que seu exame pessoal é desautorizado pelas fontes primitivas da Igreja. Sua posição está em completo desacordo com o ensino dos pais da Igreja. Nem mesmo à tradição era preciso recorrer para compreender que a Igreja, por ser uma instituição fundada por Cristo para salvação das almas, não pode errar levando as almas para o caminho da perdição. Ora, Nosso Senhor garantiu que a Igreja não seria vencida pelo erro, como também prometeu que estaria com ela até o fim dos tempos (Mt. XXVIII, 20). São Paulo, repetindo a doutrina de Cristo, reafirmou a santidade perene da Igreja que, nas palavras deste Apóstolo, não possui nem mácula e nem ruga (Efésios, V, 25-27). E, para coroar essa incólume divindade e santidade da Igreja de Cristo, o mesmo Apóstolo declarou ser a Igreja “Coluna e Sustentáculo da Verdade” (1Tm III,15).
Portanto, é o próprio Deus que em Sua divina Palavra dá garantias de que a Igreja está salvaguardada de erros e desacertos.
Seu erro, Rodrigo, consiste em confundir a Igreja com os membros que fazem parte dela. Ora, a Igreja é uma sociedade divina e humana. Divina por sua Cabeça que é Cristo. Humana por causa dos homens que dela fazem parte como membros. Assim como o médico não pode ser confundido com a medicina, e vice-versa, a Igreja não pode ser confundida com os seus membros, estes sim passíveis de erros.
Pobre Rodrigo, cuja infidelidade o conduz para a ignorância. Saiba que não sou eu quem distingue os filhos da Igreja (aqueles que erram ou podem vir a errar) da Igreja em si (que é sempre pura). Você que tanto exige citações primitivas, não consultou a Sagrada Escritura, fonte primitiva da revelação de Deus.
O que é a Igreja? Responde São Paulo: “Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador” (Efésios V, 23). “O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Colossenses I, 24).
A Igreja é então o Corpo Místico de Cristo: “Porque ninguém aborreceu jamais a sua própria carne, mas nutre-a e cuida dela, como também Cristo o faz à Igreja, porque somos membros do seu corpo (místico), da sua carne e de seus ossos” (Efésios V, 29-30)
E o que ensinaram os Papas sobre esse assunto? Citemos dois apenas.
Papa São Leão Magno († 461): "Celebraremos dignamente o Natal se nos lembrarmos, cada um de nós, de que Corpo somos membros e a que Cabeça estamos unidos, cuidando de que não venha a se inserir no sagrado edifício uma peça discordante" (Sermão XXIII).
Papa Pio XII: “Temos visto até aqui, veneráveis irmãos, que a Igreja pela sua constituição se pode assemelhar a um corpo; segue-se que mostremos mais em particular, por que motivos se deve chamar não um corpo qualquer, mas o corpo de Jesus Cristo. Deduz-se isto do fato que nosso Senhor é o fundador, a cabeça, o conservador e salvador deste corpo místico” (Mystici Corporis, 24).
No texto do Papa Bento XVI que você apresenta, também é respondida sua dúvida:
“A essência da conversão consiste em que eu já não procure meu partido, com meus interesses e gostos, mas me entregue às mãos do Cristo e me torne membro do seu corpo, que é a Igreja”.
As citações poderiam se estender. Porém, se você é bom entendedor, meia palavra basta.
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Em certo trecho de sua carta, você se queixa de que os membros da Montfort usam de ironias para desqualificar seus oponentes, como se esse recurso fosse condenável. Ora, se a ironia é reprovável na luta contra o inimigo, como você entende o irônico deboche de Santo Elias aos seguidores do deus Baal? “Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou dorme, ou necessita que o acordem” (I Reis XVIII 27).
Por acaso você reprova a ironia com a qual esse santo desqualificou seus inimigos? Além de primitiva, essa fonte é infalível!
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Demonstrando sua infidelidade à Igreja e ao Papa, você ataca a jurisdição universal do Bispo de Roma:
“O primado de Pedro não é contestado pelos católicos ortodoxos e sim a suposta supremacia. Nem mesmo o grande São Gregório Magno (desconsidere o pleonasmo magno/grande) quis ser chamado e visto como o juiz de toda Igreja, o máximos pontífices , ao contrário, reprovou essa glória como sendo, não divina, mas humana e mundana. Ele se auto-proclamou servo dos servos de Deus. Esse é o cerne e o sentido do bispo de Roma, do legítimo sucessor de São Pedro”.
Quando eu disse que os ortodoxos não aceitam o primado de Pedro, evidentemente me referi ao primado de jurisdição, que segundo os cismáticos, seria apenas um primado de honra. Se você tiver um pouco de paciência, leia o trabalho em defesa do primado de Pedro. Nele estão as refutações aos principais argumentos contra a supremacia jurisdicional do Papa, incluindo argumentos de ortodoxos cismáticos.
Para respaldar sua negação da supremacia Papal, você menciona que o Papa São Gregório Magno rejeitou a jurisdição universal, considerando essa glória como humana, e não divina.
Será que com essa referência o Virtuoso Leal destruiu a soberania do Papa? Não se iluda com suas distorções, Rodrigo. Seu modo tendencioso de conduzir os fatos é flagrante. Somente um tolo para cair nessa sua armadilha ridícula.
Muito antes de receber sua carta, eu havia estudado esse pronunciamento de São Gregório Magno, muito utilizado pelos protestantes para contrariar a verdade do primado.
Mas o que realmente significam essas palavras do Papa? Teria ele renunciado ao seu poder supremo? Impossível! Pois quem renega um poder não faz uso dele. E que São Gregório reafirmou sua soberania papal, ainda que se proclamasse “servo dos servos de Deus”, é comprovado por vários textos. O fato de se dizer servo, em nada diminui sua autoridade.
Nosso Senhor se disse servo, e, num ato de sublime humildade, lavou os pés dos Apóstolos. No entanto, ao indagar aos seus Apóstolos a compreensão de seu ato, respondeu: “Vós me chamais de Mestre e de Senhor, e dizeis bem porque eu o sou” (Jo, XIII, 12-16).
A humildade não é uma renúncia da autoridade. Pelo contrário, a autoridade exige humildade. É o que ensina Nosso Senhor: “o que entre vós é o maior faça-se como o mais pequeno e o que governa seja como o que serve” (S. Lucas, XXII, 25-27). "O maior dentre vós será vosso servo" (S. Mateus, XXIII,11).
Destarte, podemos entender as palavras de São Gregório como um gesto de humildade, a exemplo de Cristo Nosso Senhor. O Maior que se proclama servo dos servos. Nisso não há qualquer negação da soberania papal.
Para que não nos acuse de desonestos, examinaremos as palavras desse grande Papa utilizadas desonestamente para impugnar seu primado.
Que o Papa São Gregório Magno não rejeitou o título de Bispo universal, no sentido de que condenava a supremacia jurisdicional de Pedro e seus sucessores, fica bem claro pelas cartas em que reafirmou seu governo sobre todos os bispos, inclusive sobre o Bispo de Constantinopla. Ora, se esse Papa fosse contrário à sua supremacia não teria afirmado, por exemplo, que a Sé Apostólica de Roma é a “cabeça da fé, cabeça de todas as igrejas, porque ocupa o lugar de Pedro, Príncipe dos Apóstolos”. Também não teria dito que todos os Bispos “estão sujeitos à Sé Apostólica”.
São Gregório recusou o título de Bispo universal no sentido de que os demais bispos não seriam verdadeiramente bispos, mas meros agentes do Bispo de Roma. Foi neste sentido que o Papa se dirigiu ao Bispo de Constantinopla “que pouco antes se considerava indigno de ser chamado Bispo, agora, com desprezo de seus Irmãos, queria ser chamado único Bispo” (Epíst. V, 44 apud Bertrand Conway. Caixa de Perguntas. Lisboa: União Gráfica, p. 331).
Na mesma correspondência em que condena o título de bispo universal, São Gregório salienta a autoridade e supremacia do Bispo de Roma:
“Agora já há oito anos, no tempo de meu predecessor de santa memória, Pelágio, nosso irmão e companheiro, o bispo João, na cidade de Constantinopla, [...] convocou um sínodo no qual tentou se proclamar Bispo Universal. Assim que meu predecessor soube, enviou cartas anulando pela autoridade do Santo Apóstolo Pedro os atos do referido sínodo; cartas as quais eu cuidei e mandei cópias para Sua Santidade" (Epístola XLIII. Negrito nosso).
O reconhecimento da supremacia papal também pode ser visto em sua carta ao Imperador Maurício:
“Para todos os que conhecem o Evangelho, está claro que pelas palavras de Nosso Senhor o dever de cuidar de toda a Igreja foi confiado ao Bendito Pedro, o Príncipe dos Apóstolos [...] Ora, ele recebeu as chaves do reino dos céus, o poder de ligar e desligar foi dado a ele e o governo e principado de toda a igreja foram confiados a ele [...]” (Epístolas V, 37; ao Imperador Maurício. Negrito nosso).
Se esse Papa não tomou para si o título de Bispo universal, foi “por receio de prejudicar a honra devida aos outros Bispos, tributando-se honras especiais” (Epístolas V, 37 apud Bertrand Conway. Caixa de Perguntas. Lisboa: União Gráfica, p. 331).
Conclusão: sua interpretação é falsa. Você forjou uma conclusão que não existe. Atribuiu um falso sentido às palavras de São Gregório.
Por acaso é isso que você chama de compromisso com a verdade histórica?
Uma vergonha!
Ainda contra o primado você nos pergunta: “Quando se passou a exigir uma jurisdição ecumênica, ou seja, universal do bispo de Roma?”
Não se passou a exigir uma jurisdição universal do Bispo de Roma. Esse poder, privilégio único de São Pedro e de seus sucessores, sempre existiu na Igreja de Cristo. O poder supremo foi confiado a um só pastor. É Pedro quem se torna a pedra de sustento da Igreja. É ele quem recebe as chaves do reino dos Céus, símbolo da autoridade suprema; é somente a ele que Cristo confere a jurisdição sobre todos os seus cordeiros, sem restrição territorial. Ao estabelecer o papado na pessoa de Pedro, Deus exige e impõe uma jurisdição universal do bispo de Roma. Ele fez uma Igreja monárquica.
A supremacia dos papas sobre os bispos nada tem a ver com os interesses mundanos. Ela é obra da vontade divina. Deus quis assim. E a Sagrada Escritura no-la atesta.
Em sua carta à Montfort você diz que “a supremacia ou monarquia romana é estranha à Igreja primitiva”.
Como assim estranha? Os textos primitivos não confirmam essa suposta estranheza à monarquia romana. Quem realmente conhece as fontes dos pais da Igreja não se atreve a defender tamanha tolice. As provas de que a supremacia papal já se manifesta desde a era apostólica são inquestionáveis.
Como você preza pelas fontes primitivas, começaremos citandos os textos mais antigos.
No ano 96, São Clemente envia de Roma uma carta aos Coríntios. A autoridade empregada na carta por este Papa denota, já no primeiro século, plena consciência da supremacia romana.
Ciente de sua jurisdição universal, São Clemente se dirige aos Coríntios nos seguintes termos:
“Nós vos escrevemos tudo isso para vos advertir” (Cap. 7, n.1).
“Acolhei nosso conselho e não vos arrependereis” (Cap. 58, n.2).
“Mas se alguns não obedecerem àquilo que por ele [Cristo] é dito através de nós, saibam que serão implicados numa culpa e num pecado não pequeno; nós, porém, seremos inocentes desse pecado” (Cap. 59, n.1).
“De fato, sereis motivo de alegria e regozijo se, obedecendo a quanto vos temos aqui exposto no Espírito Santo, cortardes pela raiz a fúria injustificável da vossa inveja, conforme o pedido de paz e concórdia que nesta carta fizemos” (Cap. 63, n.2).
Nas palavras de São Clemente não há nada de supremacia romana estranha à Igreja primitiva. Consciente de sua autoridade, o bispo de Roma interfere na Igreja de Corinto exigindo obediência às suas determinações, sob pena de incorrerem em culpa e pecado grave.
Os termos empregados nesta carta foram suficientes para que o protestante Lightfoot, reconhecesse nela: “O primeiro passo para o domínio dos papas” (apud Leonel Franca. Protestantismo no Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 32). Harnak também declarou: “Este escrito prova que já no fim do 1º século a comunidade romana possuía uma robusta organização interior, zelava com solicitude materna pelas comunidades distantes e entendia falar uma linguagem que fosse simultaneamente expressão de dever, de amor e de autoridade” (Op. Cit.).
Nos séculos posteriores os testemunhos prosseguem ratificando a nítida consciência da supremacia petrina.
Santo Inácio de Antioquia, santo oriental, escreve à Igreja de Roma por volta do ano 107: “Vós ensinastes às outras igrejas. E eu quero que permaneçam firmes as coisas, que vós prescrevestes nos vossos ensinamentos” (apud Leonel Franca. Catolicismo e Protestantismo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 85).
Do século II temos ainda o testemunho de Santo Irineu:
“Com esta Igreja em razão de sua primazia de poder todas as outras igrejas, isto é, os fiéis de todo o universo, têm obrigação de se conformar: de fato, é nela que todas, em toda parte e sempre, conservaram a tradição que vem dos apóstolos” (apud Leonel Franca. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1928, p.109).
A noção da primazia de Roma sobre as demais Igrejas é fato incontestável já nos primeiros séculos. Esse poder soberano é tão claro que o Papa Victor ameaça excomungar os que não acatarem sua determinação. Após estabelecer o Domingo como o dia de celebração da Páscoa, o Concílio da Ásia recusou aceitar apelando para a autoridade de S. João, de S. Filipe, de S. Policarpo e de Papias. Então o Papa Victor replicou os Bispos para que aceitassem o seu mandato; pois, do contrário, ver-se-ia na dura necessidade de excomungar.
Ora, somente um bispo munido de jurisdição universal pode excomungar bispos de outra localidade. Portanto, a supremacia romana é bem familiar aos membros da Igreja primitiva.
Avancemos para o século IV. Quem encontramos? São João Crisóstomo, um Bispo oriental.
O que diz ele sobre a jurisdição de Pedro? O que séculos depois os cismáticos rejeitariam.
"Jesus disse [a Pedro] ‘Alimenta minhas ovelhas’. Por que Jesus não leva em conta aos demais Apóstolos e fala do rebanho somente a Pedro? Porque ele foi escolhido entre os Apóstolos, ele foi a boca de seus discípulos, o líder do coro. Foi por essa razão que Paulo foi procurar a Pedro antes que aos demais. E também o Senhor fez isso para demonstrar que ele devia ter confiança, uma vez que a negação de Pedro havia sido perdoada. Jesus lhe confia o governo sobre seus irmãos... Se alguém perguntar Por que então foi Santiago quem recebeu a Sé de Jerusalem?, eu lhe responderia que Pedro foi constituído mestre não de uma Sé, mas do mundo todo” (Apud Enciclopédia Católica, verbete Primado, artigo de G. H. JOYCE).
Como você pode ver, São João Crisóstomo reconhecia Pedro como chefe da Igreja em todo o mundo. Por que então os cismáticos orientais não aceitam o que esse Santo oriental ensinava? Não disse você que os ortodoxos permaneceram fiéis às fontes dos pais da Igreja? Não é o que parece.
Século V. São Bonifácio, em carta a Rufo e aos outros Bispos da Macedônia, reafirma a jurisdição de Pedro sobre toda a Igreja:
“Pertence ao bem-aventurado apóstolo Pedro, com base na afirmação do Senhor, o cuidado, por ele assumido, da Igreja universal, que, segundo o testemunho do evangelho, sobre si sabia fundada. E jamais este seu múnus honorífico pode ser livre de cuidados, pois é certo que as últimas decisões dependem da sua deliberação. [...] Esteja longe dos sacerdotes dos Senhor que algum deles caia na culpa de, em nova tentativa ilícita, tornar-se inimigo das deliberações dos antepassados, sabendo ter como rival de modo particular aquele junto ao qual o nosso Cristo estabeleceu o ápice do sacerdócio; se alguém ousar ultrajá-lo, não poderá habitar no reino dos céus. “A ti”, diz ele, “darei as chaves do reino dos céus” [Mt. XVI, 19], e neste ninguém entrará sem o favor do porteiro”. (S.S. Bonifácio I: Carta “Manet Beatum” 11/03/422).
São Leão Magno, carta ao Bispo Anastásio de Tessália:
“A coesão de todo o corpo realiza uma só saúde, uma só beleza; e esta coesão de todo o corpo requer, certamente, a unanimidade, mas exige particularmente a concórdia dos sacerdotes. Embora gozem de comum dignidade, a sua ordem, porém, não é genérica. De fato, também entre os beatíssimos Apóstolos, na igualdade de honra, houve certa diferença de poder; e se bem que a eleição fosse comum a todos, a um somente foi dado ter a primazia sobre os outros. De tal modelo surgiu também a diferenciação dos bispos e, com notável ordem, providenciou-se que nem todos assumissem tudo, mas que em cada província houvesse alguns cujo juízo entre os irmãos fosse tido como prioritário; e que, por sua vez, alguns constituídos nas cidades maiores assumissem uma responsabilidade mais ampla e através deles confluísse para a única Sé de Pedro o cuidado da Igreja universal e nada em nenhum lugar ficasse separado de sua cabeça”. (S. S. Leão I Magno: Carta “Quanta Fraternitati”).
Nos cinco primeiros séculos, contemplamos a tradição católica a repetir de modo ininterrupto a digníssima superioridade da Sé de Pedro. A monarquia Romana revela-se bem familiar aos pais da Igreja. De estranho nos primeiros séculos, somente a negação cismática da supremacia de Pedro. Negação que, posteriormente, será comum entre “ortodoxos” e protestantes. Contra o Evangelho! Contra os pais da Igreja!
É claro que você não pouparia esforços para forjar uma fonte de apoio à sua imaginária Igreja igualitária. Lançando mão de um texto de São Cipriano, você impingiu uma falsa imagem do bispo de Cartago, fazendo crer que, neste trecho isolado, ele teria exprimido sua verdadeira posição em face do primado de Pedro.
É verdade que São Cipriano usou expressões pouco comedidas e até irreverentes ao se referir à pessoa do Papa. E isso se deu logo após o Papa Estevão declarar válido o batismo ministrado por hereges e cismáticos, contrariando a posição defendida pelo santo.
A repetição do batismo nos casos referidos, pouco a pouco se estabeleceu em certas províncias da Ásia e África. Infelizmente São Cipriano aderiu a essa nova prática estranha à tradição. E o bispo a defendeu com tamanho zelo e eloqüência, que sua sentença foi ratificada pelo concílio de Cartago. Confiante, escreve ele a Roma para anunciar a deliberação. A reação, porém, foi adversa. Roma repele as inovações perigosas declarando válido o batismo recebido de hereges ou cismáticos.
Chegando-lhe a notícia da sentença papal, São Cipriano se desequilibra na escrita e cai em flagrante contradição. Neste incidente estranho às suas posições constantes e oficiais, os críticos protestantes e racionalistas notaram o deslize:
“Quando Cipriano... tenta ainda conservar a unidade da Igreja, falta-lhe o solo sob os pés e as suas afirmações vacilam no ar. Consoante a sua noção da Igreja, a unidade deveria logicamente achar-se onde se acha o bispo de Roma”. (O Ritschl, Cuprian Von Karthago, Göttinger, 1885, p. 40 apud Leonel Franca. Protestantismo no Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p.46).
Harnack é do mesmo parecer:
“Indubitavelmente no conflito com Estevão pôs-se Cipriano em contradição com as suas opiniões anteriores sobre a importância da cátedra romana na Igreja” (op.cit.).
É fato indiscutível que S. Cipriano reconhecia a suprema autoridade da Igreja. Suas palavras são enfáticas.
Por exemplo, ao comunicar ao Papa que Felicíssimo e outros cismáticos partiram em direção a Roma, diz: “Atrevem-se estes a dirigir-se à cátedra de Pedro, a esta igreja principal de onde se origina o sacerdócio... esquecidos de que os romanos não podem errar na fé” (apud Leonel Franca. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1928, p.109).
Em outra ocasião, assevera o bispo de Cartago que Roma é “a matriz e o tronco da Igreja católica” (op. cit.). E que: “estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja Católica” (op.cit.)
Não há dúvidas de que S. Cipriano reconhecia o governo universal do Papa. Suas expressões não permitem outra conclusão. E é com base nos escritos desse santo que o insuspeito Harnack conclui: “S. Cipriano reconheceu particular importância à Igreja de Roma, porque esta Sé era a Sé do Apóstolo, a quem Cristo especialmente conferia a autoridade Apostólica. Esta Igreja era para ele o centro da autoridade, da unidade, e a Mãe de todas as igrejas esparsas pelo mundo” (Dogmengeschichte, I, 384 apud Bertrand Conway. Caixa de Perguntas. Lisboa: União Gráfica, p. 328).
É muita desonestidade sua interpretar um texto sem levar em conta as circunstâncias que o motivaram, ou desprezando tudo o que o santo já havia escrito sobre o papado. E o que é um único texto escrito em momentos conturbados, perante a avalanche de escritos proclamadores da monarquia papal?
Pelo que se vê, a honestidade é uma qualidade estranha aos seus escritos...
Considerando sua infidelidade confessa, sua desonestidade partidária, e sua manobra tendenciosa, não há porque prosseguir com esta refutação que já se prolongou além do previsto. Para defender a honra da Igreja Católica, único motivo pelo qual lhe respondemos, bastam os argumentos até aqui apresentados.
Se você quiser prosseguir com o debate, do qual você novamente saiu perdedor, pelo menos seja fiel às fontes que consultar. Não distorça ao seu próprio gosto documentos e fatos históricos. Caso contrário, não desperdice seu tempo nos escrevendo. É um favor que você nos faz.
Que Deus tenha pena de sua alma.
In Jesu et Maria, semper
Eder Silva
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