Remetente: José Raimundo da Silva
Cidade: Itajubá / MG
Data: 15/11/2009
Religião: Católico
Escolaridade: Superior concluído
Profissão: Professor de Matemática
Gostaria de uma resposta se possível. Se a fé é um dom (uma dádiva) de Deus, eu quero entender que quem tem fé recebeu esta condição de ter fé em Deus. Aí, eu me enrosco, e quem não tem fé, será que Deus não o tocou? .Então me ajuda a sair deste enrosco, pelo menos pra mim.
Muito obrigado.
A paz de Cristo.
José Raimundo
RESPOSTA
Prezado professor José,
Salve Maria!
Agradeço a confiança depositada em nosso site. Sua dúvida nos dá oportunidade de esclarecer alguns pontos fundamentais sobre a Fé, como por exemplo, que ela não é um toque ou sentimento interior.
No juramento contra o modernismo, instituído pelo Papa São Pio X, pode-se ler a seguinte declaração:
“sustento com plena certeza e sinceramente professo que a Fé não é um cego sentimento (sensum) religioso que emerge da obscuridade do subconsciente (subconscientiae), por impulso do coração e inclinação da vontade moralmente formada, mas que é verdadeira adesão (assensum) da inteligência à verdade recebida de fora, pela pregação (ex auditu), pela qual cremos ser verdadeiro tudo o que foi dito, atestado e revelado pelo Deus pessoal, Criador e Senhor nosso, e o cremos por causa da Autoridade de Deus soberanamente veraz.” (DZ. 3542) (grifo e negrito meu)
Deus revelou aos homens verdades na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja Católica. Quando uma pessoa aceita como verdade tudo o que consta nessas duas fontes da revelação, dizemos que ela possui a Virtude da Fé. Nesse processo de adesão, Deus é a força sobrenatural que nos impele, por meio de sua graça, a aceitar a verdade divina.
É o que ensina Santo Tomás de Aquino em sua Suma Teológica:
“Crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça” (S.Th. II-II, 2, 9).
Deus é o motor que move. A vontade movida, ordena. E a inteligência, submissa, aceita.
Postos os esclarecimentos necessários, passo a resolver seu dilema.
O senhor diz não conseguir explicar o porquê de alguns não terem Fé.
“Se a fé é um dom (uma dádiva) de Deus, eu quero entender que quem tem fé recebeu esta condição de ter fé em Deus. Aí, eu me enrosco, e quem não tem fé, será que Deus não o tocou?”
Caro José, sendo a Fé uma adesão da razão às verdades que Deus revelou, não ter Fé, significa justamente o oposto, isto é, uma recusa ou insubmissão da inteligência a essas verdades. Deus não pode ser considerado a causa da falta de Fé no mundo. Se alguém se recusa a ter virtudes, o faz por livre vontade, recusando as graças que lhes são enviadas do Céu.
Para facilitar o entendimento, dou-lhe a seguir um exemplo elucidativo.
Um professor quer ensinar a todos os alunos, mas nem todos querem aprender. Ele proporciona todos os meios para que seus alunos recebam a luz do saber. Porém, se há alunos que recusam a luz, preferindo as trevas da ignorância, não será por negligência do professor que fez de tudo para ajudá-los.
O mesmo se aplica àqueles que recusam a Fé.
Deus quer salvar a todos os homens (I Timóteo II, 4). Ora, a Fé é condição absolutamente necessária para a salvação (Hebreus XI, 6). Portanto, é desejo de Deus que todos tenham Fé. Por isso, Ele proporciona os meios para que todos tenham dons e virtudes. Pelo batismo confere aos batizados a virtude da fé infusa e o dom da fé. Aos não batizados, as graças que os chamam para o tesouro da Fé.
É a esse chamado de Deus que alguns não correspondem, ignorando voluntariamente as graças que lhes são dispensadas. E a não correspondência a esse chamado faz com que existam pessoas sem Fé.
Quando os fariseus recusaram crer em Cristo, não o fizeram por descuido ou desprezo de Deus, que fez de tudo para convertê-los. Eles tiveram provas suficientes para reconhecer a divindade de Nosso Senhor. Presenciaram milagres e profecias. Mas, por cegueira e teimosia, preferiram a escuridão à luz da Fé.
Espero que essas explicações tenham ajudado o senhor a sair do seu enrosco. Permanecendo dúvidas, volte a nos escrever.
In Jesu et Maria, semper
Eder Silva
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