Em defesa do Primado de São Pedro PDF Imprimir E-mail
Cartas - Defesa da Fé
Remetente: Moisés Gomes de Lima 
Data: 26/02/2009
Cidade: Cedro / CE
Idade: 22 anos
Religião: Católica
Escolaridade: Superior em andamento
Profissão: Eletrotécnico


Prezados, a paz de Jesus e o amor de Maria. Acabo de conhecer o vosso sítio na internet e vejo que assim como eu, vocês buscam defender a fé católica neste poderoso meio de comunicação que é a internet, além de admirar o trabalho da Associação Cultural Montfort.

Pois bem, apesar de procurar defender nossa Fé, o puco que sei aprendí da Montfort e outros sites congeneres, no entanto não tenho um conhecimento aprofundado, nem posso me considerar um apologista (sou eletrotécnico, bem distante né...), por isso recorro a vocês para responder as missivas que recebí recentemente de um protestante, as quais emvio a seguir. Desde já agradeço a vossa atenção.

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Todos sabem que o título “papa” é empregado para o supremo chefe da igreja católica apostólica romana. Este termo vem do grego e significa “pai”. Já em latim, é formado pela junção da primeira sílaba de duas palavras: pater patrum, que quer dizer “pai dos pais”. Mas o significado que os católicos mais gostam de conferir é: Petri apostoli potestatem accipiens, isto é, “aquele que recebe autoridade do apóstolo Pedro”.

Segundo a doutrina católica, o papa é o sucessor de São Pedro no governo da Igreja Universal e o vigário de Cristo na terra. Tem autoridade sobre todos os fiéis e sobre toda a hierarquia da igreja. Além da autoridade espiritual, exerce uma territorial (interrompida de 1870 a 1929), que, a partir de 1929, foi limitada ao Estado da cidade do Vaticano. É infalível quando fala em assuntos de fé e moral (ex-cathedra). Alguns títulos que o papa ostenta dão uma amostra deste exagero, a saber: Bispo de Roma, Primaz da Itália, Patriarca do Ocidente, Vigário de Jesus Cristo, Servo dos Servos de Deus, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Soberano do Estado da Cidade do Vaticano, Arcebispo e Metropolita da Província Romana e Santo Padre.

Durante a história de sua existência, o papado teve seus altos e baixos. Recentemente, o atual papa teve de pedir desculpas aos judeus por seu antecessor, o papa Pio XII, e se vê em dificuldades com a questão do celibato. Apesar de toda esta imponência de chefe de Estado, líder espiritual da maior parcela de cristãos do mundo (1 bilhão) e administrador de um império financeiro que a cada ano acumula bilhões de dólares, algumas perguntas precisam ser feitas. Existem provas bíblicas e históricas que indiquem que o papa é o sucessor do apóstolo Pedro? Pedro foi o primeiro papa e gozou de supremacia sobre os demais apóstolos? Teria Pedro fundado a igreja de Roma e transformado essa igreja na sede de seu trono episcopal?

O alvo de nossa matéria é apresentar respostas adequadas a perguntas cruciais como essas, visto que a Internet está repleta de sites de cunho apologético católico com o intuito de refutar as verdades das Escrituras Sagradas apresentadas pelos evangélicos.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja

Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam

Esse trecho de Mateus 16.18 é tão especial para os fundamentos papais que foi escrito em enormes letras douradas na cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma. Destarte, ele é a fonte mais importante de toda a dogmática1 católica. A expressão Tu es Petrus, carrega atrás de si uma procissão de outras heresias erigidas em cima das interpretações de textos deslocados de seus respectivos contextos, interpretados de modo arbitrário pelos teólogos e doutores católicos romanos. É ele o genitor da infalibilidade papal, do poder temporal e dos demais desvios teológicos, contradições e distorções dessa igreja. Portanto, esclarecer à luz da Bíblia todo esse equívoco teológico é desestruturar a base em que se firma a eclesiologia2 católica.

Os pilares do papado

A tese católica se firma em três questionáveis pressupostos principais, a saber:

Cristo edificou a Igreja sobre Pedro, numa interpretação totalmente tendenciosa e arbitrária de Mateus 16.18,19.

Pedro fundou e dirigiu a Igreja de Roma, sendo martirizado nessa cidade.

A sucessão apostólica numa cadeia ininterrupta até nossos dias: de Pedro a Karol Wojtyla (João Paulo II).

Outrossim, há ainda outros argumentos apresentados pelos católicos romanos que se firmam nessa trilogia, mas, neste momento, analisaremos apenas os já mencionados.

Em que pedra a igreja está edificada?

O endereço eletrônico católico www.lepanto.org.br, da Frente Universitária Lepanto, é um site antiprotestante e, na página sobre a Igreja Católica, que interpreta Mateus 16.18, traz a seguinte declaração: “Esse ponto é muito importante, pois a interpretação truncada dos protestantes quer admitir o absurdo de que Nosso Senhor não sabia se exprimir corretamente. Eles dizem que Cristo queria dizer: Simão, tu és pedra, mas não edificarei sobre ti a minha Igreja, por que não és pedra, senão sobre mim. Ora, é uma contradição, pois Nosso Senhor alterou o nome de Simão para Kephas, deixando claro quem seria a pedra visível de sua Igreja”.

Entendemos que essa declaração nada mais representa do que o ecoar das suposições romanas na tentativa de harmonizar o que não pode ser harmonizado. A princípio pode até impressionar, mas carece totalmente de fundamentos. Leiamos o versículo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro (Petrus), e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16.18,19).

Jesus, ao proferir essa declaração, estava realmente afirmando que Ele próprio era a “pedra” sobre a qual sua Igreja seria edificada. Temos diversos motivos para esta interpretação. Vejamos:

Petra versus Petros

Ao referir-se a Pedro, Jesus emprega o termo grego Petros, que significa um seixo, pedregulho. Ao referir-se à edificação da Igreja, diz que ela seria edificada não sobre o Petros (Pedro), mas sobre a petra, um rochedo inabalável. Ora, Jesus fez nítida diferença semasiológica3 entre petra e Petros. Um é substantivo feminino singular e está na terceira pessoa; o outro, masculino plural, e se encontra na segunda pessoa. Além disso, o termo petra nunca é usado na Bíblia em relação a homem algum, somente em relação a Deus. Logo, tal verso nem de longe insinua alguma coisa sobre Roma, sucessão apostólica ou algo similar. Os católicos conseguem ver o que não existe no texto.

Edificação sobre quem?

A declaração “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” é a chave para entendermos toda a problemática. Jesus perguntou a “todos”, e não somente a Pedro, “quem Ele era”. “Disse-lhes ele [Jesus]: E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15). A ele — Pedro — foi revelado, em sua confissão, que Cristo era o Messias, o Filho de Deus, daí a frase: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”, ou seja, a igreja está edificada sobre a confissão de que Ele (Jesus) era o Filho de Deus.

A bem da verdade, a Igreja jamais poderia ser solidamente edificada sobre homem algum, nem mesmo Pedro, que, embora tenha sido um grande apóstolo, foi, no entanto, falível e passível de erros, como demonstra, de maneira sobeja, o contexto imediato: “Ele [Jesus], porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mt 16.23), além de outros escritos do Novo Testamento em que podemos perceber a inconstância de Pedro (Mt 26.69-75).

Quem é a pedra?

O significado de Petros e petra está em perfeita concordância com o contexto doutrinário e teológico neotestamentário. Sendo Petros um fragmento tirado da grande rocha, há de se ver uma conotação de todos os cristãos como Petros, e isto é descrito posteriormente pelo próprio Pedro: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1Pe 2.5).

Por sua vez, todas as “pedras vivas” estão edificadas sobre a grande Petra, que é Jesus: “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Ef 2.19-21).

Agora, comparemos o texto de Mateus 16.18 com o texto seguinte:

“Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos. E, quem cair sobre esta pedra, despedaçar-se-á; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó” (Mt 21.42-44).

Indubitavelmente, tanto em Mateus 16.18 quanto em 21.44, Jesus é a pedra. Desde a época dos salmistas, passando pelo profeta Isaías, a palavra profética já anunciava o Messias como a pedra da esquina (Cf. Sl 118.22, Is 28.16).

Igualmente, é bom lembrar que na narrativa apresentada pelo evangelista Marcos é omitida a frase de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mc 8.27-30). Isto não é de pouca relevância, pois Marcos, por muito tempo, foi companheiro de Pedro (1Pe 5.13) e, segundo Eusébio4 , foi de Pedro que Marcos coletou informações para redigir seu evangelho. Pedro, em nenhum momento, disse de si mesmo que era a rocha ou pedra da igreja, caso contrário, Marcos teria confirmado o fato de modo enfático. Se porventura o dogma da superioridade de Pedro é verdadeiro e de tamanha importância, como ensina a Igreja Católica, não parece praticamente inconcebível que os registros de Marcos e de Lucas silenciem a respeito?

O que significa Kephas?

Kephas significa pedra ou Pedro? João nos dá a resposta: “... Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)” (Jo 1.42). Fica claro que Cefas ou Kephas significa Pedro e não pedra. Para fazer jus à coerência e à lógica católica, Jesus deveria ter dito mais ou menos assim: “Tu és Kephas e sobre esta kephas edificarei...”, ou: “Tu és Pedro e sobre este Pedro edificarei...”, caso não houvesse nenhuma diferença.

Um acréscimo ao nome de Pedro

Teria Jesus mudado o nome de Simão Barjonas para Pedro ou apenas feito um acréscimo?

Ora, quando se muda um nome faz-se necessariamente uma substituição. O nome anterior não é mais mencionado, como nos casos de Abrão para Abraão (Gn 17.5) e de Sarai para Sara (Gn 17.15). Já no caso de Pedro, houve apenas um acréscimo, como bem atesta Lucas: “Agora, pois, envia homens a Jope e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro” (At 10.5,18,32; 11.13). Podemos ver que se trata de um acréscimo no nome e não a mudança do mesmo, como querem os teólogos do Vaticano. Além disso, Pedro continuou sendo chamado de Simão (At 15.14) ou Simão Pedro (Jo 21.2-3,7), algo que, no mínimo, seria estranho se o antigo nome tivesse sido trocado. Querer ver nisto uma ligação da suposta supremacia de Pedro com relação ao papado, certamente, é ir além dos limites admissíveis.

A quem pertencem as chaves?

Os católicos insistem em alardear que a simbologia das chaves (v. 19) significa supremacia jurisdicional sobre todo o cristianismo. Conquanto, sabemos que a chave foi realmente outorgada a Pedro para “abrir e fechar”. Todavia, devemos salientar que foram as chaves do “reino dos céus” e não da Igreja que lhe foram concedidas. O reino dos céus não é a Igreja.

Antes, as “chaves” estavam nas mãos dos fariseus, como lemos: “Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam” (Lc 11.52).

Essas chaves representam a propagação do evangelho de arrependimento de pecados, pelo qual todos os cristãos, e não Pedro apenas, podem abrir as portas dos céus para os pecadores que desejam ser salvos. Tanto é que, em Mateus 18.18, Jesus confia as chaves também aos demais apóstolos: “Em verdade vos digo [digo a vocês e não somente a Pedro] que tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu”.

Pedro, portanto, foi o primeiro a usá-la por ocasião da festa de Pentecostes, quando quase três mil almas foram salvas (At 2.14-41). Depois, a usou para pregar ao primeiro gentio, Cornélio (At 10.1-48). É esta a chave que abre a porta, e ela não é prerrogativa exclusiva do hierarca católico romano. Ninguém tem o poder (ou direito) de monopolizá-la, como querem os católicos romanos.

Certo site ortodoxo5 , comentando sobre o assunto em questão, disse com muita propriedade: “Para a Igreja una e indivisa, a interpretação desta passagem do evangelho é toda outra. Como disse Orígenes (fonte comum da Tradição patrística da exegese), Jesus responde com estas palavras à confissão de Pedro: este se torna a pedra sobre a qual será fundada a Igreja porque exprimiu a fé verdadeira na divindade de Cristo. E Orígenes comenta: Se nós dissermos também: Tu és o Cristo, Filho de Deus Vivo, então tornamo-nos também em um Pedro [...] porque quem quer que seja que se una a Cristo torna-se pedra. Cristo daria as chaves do reino apenas a Pedro, enquanto as outras pessoas abençoadas não as poderiam receber? Pedro é, então, o primeiro ‘crente’, e se os outros o quiserem seguir podem ‘imitá-lo’ e receber também as mesmas chaves.

“Jesus, com as suas palavras relatadas no evangelho, sublinha o sentido da fé como fundamento da Igreja, mais do que funda a Igreja sobre Pedro, como a Igreja Romana pretende. Tudo se resume, portanto, em saber se a fé depende de Pedro, ou se Pedro depende da fé [...] Por isso mesmo, São Cipriano de Cartago pôde afirmar que a fé de Pedro pertencia ao bispo de cada Igreja local, enquanto São Gregório de Nissa escreveu que Jesus ‘deu aos bispos, por intermédio de Pedro, as chaves das honras do céu’. A sucessão de Pedro existe onde a fé justa e ortodoxa é preservada e não pode, então, ser localizada geograficamente, nem monopolizada por uma só Igreja e tampouco por um só indivíduo. Levando a teoria da primazia de Roma às últimas conseqüências, seríamos obrigados a concluir que somente Roma possui essa fé de Pedro e, neste caso, teríamos o fim da Igreja una, santa, católica e apostólica que proclamamos no Credo: atributos dados por Deus a todas as
  comunidades sacramentais centradas sobre a Eucaristia.

“Além disso, afirma a Igreja de Roma que é ela a Igreja fundada por Pedro e que essa fundação apostólica especial lhe dá direito a um lugar soberano sobre todo o Universo. Ora, a verdade é que, para além do fato de não sabermos realmente se São Pedro foi o fundador dessa Igreja Local e o seu primeiro papa, temos conhecimento de que outras cidades ou outras localidades menores podiam, igualmente, atribuir a si mesmas essa distinção, por terem sido fundadas por Pedro, Paulo, João, André ou outros apóstolos. Assim, o Cânone do 6º Concílio de Nicéia reconhece um prestígio excepcional às Igrejas de Alexandria, Antioquia e Roma, não pelo fato de terem sido fundadas por apóstolos, mas porque eram na altura as cidades mais importantes do Império Romano e, sendo assim, deram origem a importantes igrejas locais...”

Onde está a primazia de Pedro?

A lógica vaticana, insaciável em sua disposição em favorecer Pedro em detrimento dos demais apóstolos, esquiva-se em seus conceitos teológicos. Os católicos procuram, a qualquer preço, encontrar nas Sagradas Escrituras um elo de ligação entre a primazia de Pedro e a alegada supremacia do papa. Os argumentos apresentados são quase sempre furtados de seus contextos a fim de fortalecer essa cadeia de fantasia teológica. A pessoa que analisar o assunto pela ótica papista tende a ficar impressionada com a avalanche de textos que colocam Pedro no topo da lista de exclusividade. À primeira vista, a abundância de uma aparente primazia tende a sustentar essa corrente. No entanto, confrontaremos os textos citados e veremos que não são tão pujantes quanto parecem.

A Pedro foi conferida com exclusividade a chave dos céus (Mt 16.19)

Este argumento foi satisfatoriamente respondido anteriormente.

A Pedro foi dado, por duas vezes, cuidar com exclusividade do rebanho de Cristo (Lc 22.31,32; Jo 21.15,17)

Os católicos frisam nesses textos as palavras “confirmar” e “apascentar” e vêem nelas uma suposta primazia jurisdicional de Pedro. O engano deste argumento está em não mostrar que o apóstolo Paulo também “confirmava” as igrejas (Cf. At 14.22; 15.32,41).

Quanto ao “apascentar”, esta também não era uma exclusividade de Pedro, pois todos os bispos deveriam ter esta incumbência (At. 20.28). Para sermos coerentes, deveríamos dar este status de primazia aos demais, pois não só apascentavam como confirmavam as igrejas.

Pedro foi o primeiro a pregar um sermão no dia de Pentecostes (At 2.14)

Ora, Pedro, ao pregar na festa de Pentecostes, estava apenas fazendo uso das chaves para abrir a porta da salvação. Demais disso, alguém tinha de tomar a palavra e coube a Pedro, que era o mais velho e intrépido. Mas, ao terminar a mensagem, ninguém o teve por especial, antes se dirigiram a todos com a expressão: “Que faremos varões irmãos?”. Dirigiram-se a toda a igreja e não apenas a Pedro (At 2.37).

Pedro foi o primeiro a evangelizar um gentio (At 10.25)

Ao contrário do que pensam os católicos, o caso de Cornélio é um contragolpe no argumento romanista, pois Pedro teve de dar explicações perante a Igreja por ter se misturado e comido com um gentio. Raciocinemos, onde está a primazia de Pedro nesse episódio? Se a tivesse, porventura daria explicações perante seus supostos comandados? Certamente que não! Mas Pedro teve de se explicar, porque não possuía nenhum governo sobre os demais.

No catálogo dos apóstolos, o nome de Pedro sempre é colocado em primeiro lugar (Mt 10.2-4, Mc 3.16-19, Lc 6.13-16, At 1.13)

É bom frisarmos que este primeiro lugar na lista de nomes é apenas de caráter cronológico e não funcional. Percebe-se que os quatro primeiros nomes da lista dos sinópticos são: Simão, André, João e Tiago, os primeiros a serem chamados para seguir o Mestre e, dentre eles, coube a Pedro ter uma prioridade cronológica. Todavia, em outros textos, como, por exemplo, Gálatas 2.9, seu nome não aparece em tal posição: “E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas...”.

Pedro escolhe Matias para suceder Judas Iscariotes (At 1.15)

Lendo cuidadosamente Atos 1.15-26, vemos que Pedro apenas expôs o problema, qual seja, a falta de um sucessor para o cargo de Judas. No entanto, Matias foi eleito pela igreja por voto comum e não por decisão de Pedro: “E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos” (v. 26).

O veredicto de Jesus

O fator agravante quanto à intenção de tornar Pedro soberano entre os demais apóstolos está nas palavras taxativas de Cristo — o ÚNICO Sumo Pastor, Chefe Supremo, Cabeça e Fundamento da Igreja — em não titubear e corrigir algumas precoces ambições de supremacia entre eles.

Certa feita, tal idéia foi sugerida ao Mestre que, no mesmo instante, a rechaçou dizendo: “... Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo...” (Mt 20.18-27).

O próprio Pedro desfaz essa lenda ao dizer: “ninguém tenha domínio sobre o rebanho...” (1Pe 5.1-3). Não se pode ver aí nenhum vestígio de superioridade, supremacia ou destaque sobre os demais, pois ele mesmo se igualava aos outros dizendo: “... que sou também presbítero com eles...” Pedro jamais mandou. Pelo contrário, foi mandado e obedeceu: “Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João” (At 8.14). E tudo isso faz jus às palavras de Jesus, que disse: “Não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou” (Jo 13.16).

Pedro esteve em Roma?

Embora a Bíblia não diga nada a respeito, os católicos insistem em dizer que o fato de o apóstolo Pedro ter sido o fundador da igreja de Roma é incontestável. Atribuem, ainda, ao apóstolo Pedro, um pontificado de 25 anos na capital do Império. E, conseqüente (deduzem), ele tenha morrido ali.

É claro que estas ligações, em princípio, são de valor inestimável, pois, entrelaçadas, robustecem a tese vaticana da primazia do papado. Contudo, há de se frisar que somente a chamada tradição vem em socorro das causas romanistas nestas horas e, mesmo assim, de maneira dúbia.

Pedro não pode ter sido papa durante 25 anos, pois foi martirizado no reinado do imperador Nero, por volta do ano 67 ou 68 d.C. Subtraindo 25 anos, retrocederemos ao ano 42 ou 43. Nessa época, ainda não havia sido realizado o Concílio de Jerusalém (At 15), que ocorreu por volta do ano 48 ou 49 d.C., quando Pedro participou (mas não deveria, porque, segundo a tradição, nessa época o apóstolo estava em Roma). No entanto, ainda que Pedro, segundo a opinião católica, tivesse participado do Concílio de Jerusalém, a assembléia fora presidida por Tiago (At 15.13-21).

No ano 58 d.C., Paulo escreveu a epístola aos Romanos e, no capítulo 16, mandou uma saudação para muitos irmãos daquela cidade, mas Pedro sequer é mencionado. Em 62 d.C., o apóstolo Paulo chegou em Roma e foi visitado por muitos irmãos (At 28.30,31), todavia, nesse período, não há nenhuma menção de Pedro.

O apóstolo Paulo escreveu quatro cartas de Roma: Efésios, Colossenses, Filemom (62 d.C.) e Filipenses (entre 67/68 d.C.), mas Pedro não é mencionado em nenhuma delas. Se Pedro estava em Roma no ano 60 d.C., como se deve entender a revelação referida no livro de Atos, em que Jesus disse a Paulo: “Importa que dês testemunho de mim também em Roma?” (At 23.11). Se Pedro estava em Roma, não caberia a ele estar cumprindo esta função? Onde se encontrava o suposto papa de Roma nessa ocasião?

É por estas e outras razões que não acreditamos que Pedro tenha fundado ou presidido a Igreja de Roma, como afirmam os católicos.

O insustentável suporte da tradição

A tradição é um dos pilares nos quais se assenta a teologia romanista. O principal órgão da tradição é a Patrística, os escritos dos pais da Igreja. Essa tradição é de relevante valor à causa católica, pois dela advém toda a “lógica” da “sucessão apostólica”. É dela que é extraída a má interpretação de Mateus 16.18, da primazia de Roma, da corrente sucessória de São Pedro, etc. Na verdade, as coisas são bem diferentes quando analisadas de maneira criteriosa.

Dos inúmeros pais da Igreja, somente 77 opinaram a respeito do assunto de Mateus 16.18, sendo que 44 reconheceram ser a fé de Pedro a rocha. Os outros 16 julgaram ser o próprio Cristo e somente 17 concordaram com a tese vaticana. Nenhum deles afirmou a infalibilidade de Pedro e tampouco o tinham como papa. Exemplo disso é Santo Agostinho que, em uma de suas obras,13 expressamente afirma que sempre, salvo uma vez, ele havia explicado as palavras sobre esta pedra — não como se referissem à pessoa de Pedro, mas sim a Cristo, cuja divindade Pedro havia reconhecido e proclamado.

Diz certa fonte católica14 que: “Se a corrente da sucessão apostólica por alguma razão encontra-se interrompida, então as ordenações seguintes não são consideradas válidas, e as missas e os mistérios, realizados por pessoas ilegalmente ordenadas, estão desprovidos da graça divina. Essa condição é tão séria que a ausência de sucessão dos bispos em uma ou outra denominação cristã despoja-a da qualidade de Igreja verdadeira, mesmo que o ensino dogmático presente nela não esteja deturpado. Esse foi o entendimento da Igreja desde o seu início”.

Finalizando...

Procuramos não ser prolixos ao historiar sobre esta questão. Todos sabemos que o trono dos papas teve seus momentos de vacância. Muitos papas conquistaram este título por dinheiro; outros, considerados legítimos, foram condenados como hereges; e quantos, pela ganância do cargo, foram envenenados por seus rivais. Houve também os nomeados por imperadores e, quando não, havia três ou mais papas se excomungando mutuamente pela disputa da cadeira de São Pedro. Sem falar, é claro, da época negra da pornocracia (influência das cortesãs no governo).

Não é debalde que a obra literária clássica Divina comédia, de Dante Alighieri, coloca vários papas no inferno. Há, ainda, uma tremenda contradição nas muitas listas dos pontífices romanos expostos por historiadores católicos, nas quais os nomes de tais sucessores aparecem trocados ou ausentes, sem consenso algum. Não cremos que estes homens sejam os verdadeiros sucessores da cátedra de Pedro.

A bem da verdade, essa tal sucessão ininterrupta e contínua dos papas é totalmente arrebentada e falsa. É por demais ultrajante, mesmo para uma mente mediana suportar tamanha incongruência.

Pelo que foi exposto, podemos considerar serenamente que “Pedro nunca foi papa e tampouco o papa é o vigário de Cristo”.

Biografia de Pedro

• Cidade natal: nasceu em Betsaida, Galiléia.
• Filiação: filho de Jonas e irmão do apóstolo André, seu primeiro nome era Simão.
• Moradia: na época de seu encontro com Cristo, morava em Cafarnaum, com a família da sua mulher (Lc 4,31-38).
• Profissão: pescador, trabalhava com o irmão e o pai.
• Qualidades: dinâmico (Mt 17.4), fiel (Mt 26.33), sincero (Jo 21.17), ousado (Mt 14.28), humilde (Lc 5.8), entre tantas outras.
• Defeitos: ansioso (Mt 19.27), inconstante (Mt 14.30), precipitado (Mt 16.22), duvidoso (Mt 26.75) • Fontes: Os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo.
• Ministério: destacou-se entre os doze apóstolos e foi a ele que Cristo apareceu pela primeira vez depois de ressuscitar.
• Cartas escritas: 1 e 2 epístolas que levam o seu nome.

•Viagens ministeriais:

- Primeira viagem: de Jerusalém a Samaria (At 8.14-25).
- Segunda viagem: de Jerusalém, através de Lida e Jope, até Cesaréia (At 9.32; 11.2).
- Terceira viagem: de Jerusalém a Antioquia (At 15.1-14; Gl 2.11).

• Pedro e Jesus:

- Perto do mar da Galiléia, é chamado para seguir a Jesus (Mt 4.18,19).
- Perto da Galiléia, encontra a moeda do tributo na boca do peixe (Mt 17.24-27).
- Na Galiléia, anda sobre as águas do mar (Mt 14.28,29).
- Em Jerusalém, na última Ceia, Jesus lava seus pés (Jo 13.6,7).
- No Jardim do Getsêmani, corta a orelha de Malco (Jo 18.10,11).
- Em Jerusalém, no palácio do sumo sacerdote, nega o seu Senhor (Jo 18.25,27).
- Em Jerusalém, sente remorso (Mt 26.75).
- João e ele correm, apressados, para o túmulo vazio (Jo 20.3-8).
- Junto ao mar da Galiléia, após a ressurreição, vê o mestre e é consolado (Jo 21.3-17).

• Momentos ministeriais marcantes:

Em Jerusalém, profere seu maior discurso, quando ocorrem quase três mil conversões (At 2.41).

- Em Jerusalém, cura um paralítico (At 3.6).
- Em Jerusalém, profere dura sentença sobre Ananias e Safira (At 5. 1-11).
- Em Lida, cura Enéias de paralisia (At 9.34,35).
- Em Jope, ressuscita Tabita, também chamada de Dorcas (At 9.36-41).
- Em Jope, tem a visão do lençol descendo do céu (At 10.9-16).
- Em Cesaréia, prega na casa de Cornélio (At 10.23-48).
- Em Jerusalém, é libertado da prisão por um anjo (At 12.3-10).

Pedro em Roma, segundo a tradição católica romana

Todos os anos, milhares de peregrinos cristãos vão para o Vaticano, o centro da cristandade católica, para visitar a basílica que possui o nome do apóstolo Pedro. É dito aos visitantes que o túmulo de Pedro encontra-se nessa igreja.

De acordo com uma antiga tradição, Pedro tornou-se mártir em Roma durante as perseguições aos cristãos por parte do imperador Nero, nos anos 60 A.D. Contudo, não temos a mínima idéia de como ou quando ele chegou lá e as evidências, arqueológicas e textuais, deste período em Roma são poucas – datadas do segundo século A.D., tão-somente.

Clemente é o primeiro a escrever sobre o sofrimento e o martírio de Pedro6, mas não nos dá nenhum indicativo de que Pedro tenha trabalhado ou morrido em Roma. O bispo Inácio de Antioquia, enviado a Roma e martirizado entre os anos 110 e 130 A.D., também não faz menção a Pedro como líder (bispo) da igreja em Roma.

Os teólogos católicos romanos entendem que o texto de 1Pedro 5.12,13 o situa em Roma — mas de maneira críptica; isto é, descrevem o remetente da carta como “o eleito na Babilônia”, um código do século 1º para Roma, o império opressor daqueles dias. Mas embora esta carta contenha o nome de Pedro, alguns acreditam que não tenha sido escrita por ele. Além disso, a carta é endereçada aos cristãos das províncias da Ásia menor romana, confirmando o relato de Paulo das atividades de Pedro no extremo Leste.

No final do século 2º, contudo, Pedro se junta a Paulo, de forma regular, como um dos fundadores da igreja em Roma. A inspiração para essa tradição parece vir do livro de Atos, que divide, de forma organizada, a descrição sobre como o evangelho foi espalhado de Jerusalém (o cenário de Atos 1) até Roma (o cenário do capítulo final, Atos 28): uma seção de Pedro (Atos 1-12) seguida por uma seção de Paulo (Atos 13-28). Na mesma época, o pai da igreja, Irineu (c. 185 A.D.), descreveu a igreja de Roma como “a igreja maior, mais antiga e igreja universalmente conhecida, fundada e organizada em Roma pelos apóstolos mais gloriosos: Pedro e Paulo”.7 O presbítero (ancião da igreja) Gaio menciona dois monumentos em Roma dedicados a esses “fundadores da igreja”. Segundo Gaio, o monumento de Pedro encontra-se no Vaticano e o de Paulo, no Caminho de Ostiense (região Sul de Roma, onde se encontra a Basílica de São Paulo fora dos muros)8. O termo usado por Gaio
  para monumento foi tropaion, que significa “troféu” — pode refer ir-se também a um túmulo ou a um memorial erguido no local do sofrimento9. Assim, Gaio é o escritor mais recente a situar o martírio de Pedro em Roma.

No início do século 3º, o escritor cristão Tertuliano supõe que os leitores saibam que Pedro foi crucificado e Paulo executado (provavelmente decapitado) durante as perseguições do imperador romano Nero10. Tertuliano interpreta a morte de Pedro como o cumprimento de João 21.18,19, no qual Jesus prediz: “Quando for velho [Pedro], estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir. Jesus disse isso para indicar o tipo de morte com a qual Pedro iria glorificar a Deus”.

A tradição, comum no meio cristão, de que Pedro fora crucificado de cabeça para baixo vem de uma obra de 231 A.D: “E, por fim, vindo a Roma, ele foi crucificado de cabeça para baixo; pois havia pedido que sofresse daquela maneira”.11 Jerônimo, no século 4º, acrescenta os motivos que levaram Pedro a fazer tal pedido: “Ele recebeu em suas mãos a coroa do martírio ao ser pregado na cruz com a cabeça voltada para o chão e seus pés levantados para o alto, afirmando que ele era indigno de ser crucificado da mesma maneira que seu Senhor”.12

Segundo a pregação romana, o túmulo de Pedro encontra-se exatamente embaixo do altar consagrado da basílica e atrás do Nicho dos Pálios, local onde as estolas litúrgicas (pálios) são deixadas durante a noite antes de serem entregues aos novos bispos. Escavadores modernos encontraram um nicho escondido nessa parede contendo os ossos de um homem envolvidos em um pano de púrpura cara que, “acreditam”, possuía cerca de 60 anos quando morreu. Em 1968, a igreja declarou que tais ossos eram os restos de São Pedro.

É importante esclarecer que todas estas informações são contestadas por vários estudiosos, devido à ausência de evidências satisfatórias e suspeita de manipulação de informações por parte da igreja romana. Todo o esforço de Roma em autenticar a presença de Pedro por lá visa aglutinar argumentos que corroborariam para aceitação de seu papado em Roma, pois como poderia sê-lo se jamais estivera lá? Entretanto, ainda que houvesse consenso de que Pedro esteve em Roma e que lá foi martirizado, isso ainda não seria o suficiente para alterar a avalanche de argumentos bíblicos que se opõe ao estabelecimento de seu papado. A dogmática católica depende da presença de Pedro em Roma, porém, esta suposta presença, se fosse confirmada, não tem a capacidade em si mesma de evidenciar que Pedro tenha iniciado a linha de sucessão apostólica, como quer a igreja romana.



RESPOSTA


Prezado Moisés,
Salve Maria!

Agradeço suas felicitações e peço que reze por nós para que continuemos firmes na batalha por Deus e pela Religião.

Você nos encaminhou três textos para refutação. O primeiro contra as imagens católicas, repetindo, como de praxe, a surrada e perrengue argumentação do protestantismo. O segundo contra o Primado de S. Pedro. E, por fim, para encerrar o espetáculo de mentiras, um tolo ataque à Virgem Maria.

Nesta carta tratarei somente das objeções contra o primado de Pedro, deixando os outros dois assuntos para uma próxima carta.

De modo geral, quase toda a argumentação não passa de cópia fiel de sofismas ultrapassados. Dizem condenar a tradição católica, mas fazem da mentira uma tradição protestante.

Em nossa carta “Resposta a um pretenso doutor”, recém publicada, você poderá encontrar grande parte das respostas às acusações contra o primado que, com absoluta fidelidade, o protestante faz questão de reproduzir.

Para evitarmos repetições desnecessárias, peço a você que consulte a carta supracitada. No demais, refutaremos somente as novidades.    

Começa o protestante:

“... devemos salientar que foram as chaves do ”reino dos céus” e não da Igreja que lhe foram concedidas. O reino dos céus não é a Igreja” (o negrito é meu).

Cristo deu a Pedro as chaves do Reino dos céus. A Igreja não é o Reino dos céus. Conclusão: Pedro não tem as chaves da Igreja.

Uma interpretação que só entra na cabeça desorientada de um protestante. 

Como Pedro foi constituído chefe supremo da Igreja, as chaves que ele possui tem que ser dela. E que a Igreja também é designada como Reino dos céus, nos garante o próprio Cristo:

"O Reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta. Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes". (S. Mateus, XIII, 47-50)

Nessa parábola, Nosso Senhor faz referência à Igreja que é constituída de homens bons e maus. Assim como a arca de Noé [figura da Igreja] reunia animais puros e impuros, na Igreja, os maus, isto é, os impuros, não deixam de fazer parte dela. Isto porque dentre os que possuem a virtude da fé, nem todos cumprem a lei divina, preservando na alma a semelhança com Deus. Estes, embora permaneçam no Reino dos céus da Igreja, não poderão adentrar no Reino dos Céus, no sentido da bem aventurança celeste, caso permaneçam no estado de vida impura.

Ademais, o próprio símbolo das chaves é suficiente para desqualificar essa objeção. Entre os orientais, por exemplo, elas eram suspensas aos ombros para designar a posse da autoridade. Na Sagrada Escritura é bem claro o poder soberano que as chaves representam:

"Naquele dia chamarei meu servo Eliacim, filho de Helcias. Revesti-lo-ei com a tua túnica, cingi-lo-ei com o teu cinto, e lhe transferirei os teus poderes; ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre seus ombros a chave da casa de Davi; se ele abrir, ninguém fechará, se fechar, ninguém abrirá" (Isaías, XXII, 20-24).

Disso só é possível concluir que o Reino dos céus, do qual Pedro se torna clavígero, é uma referência clara à Igreja. Do contrário, Cristo teria elevado Pedro à condição de Supremo Pontífice do Céu, no sentido da bem-aventurança eterna, o que seria um absurdo.

Também não procede a afirmação de que “Essas chaves representam a propagação do evangelho de arrependimento de pecados, pelo qual todos os cristãos, e não Pedro apenas, podem abrir as portas dos céus para os pecadores que desejam ser salvos”.

Somente o significado das chaves bastaria para rebater mais essa distorção descabida.

Reduzir as chaves, que representam o poder soberano de Pedro, à simples propagação do evangelho, é forçar uma interpretação que a Bíblia não admite.

Se são elas que autorizam os apóstolos a pregarem o Evangelho, como explicar que mesmo antes de recebê-las, Pedro e os demais apóstolos já anunciavam e propagavam o Evangelho de Nosso Senhor? Poderiam fazê-lo sem ter a posse das chaves? O Evangelho nos garante que sim:

"Reunindo Jesus os doze apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades. Enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos". (S. Lucas, IX, 1-2).

Os apóstolos eram sacerdotes, e como tais, pregavam o Evangelho de Nosso Senhor, cumprindo sua ordem divina “Ide e ensinai a todos”. De outro modo, admitindo a interpretação protestante, somente Pedro estaria autorizado a pregar o Evangelho, uma vez que ele foi o único a receber as chaves do Reino dos céus.

A segunda objeção é similar:

“Ora, Pedro, ao pregar na festa de Pentecostes, estava apenas fazendo uso das chaves para abrir a porta da salvação. Demais disso, alguém tinha de tomar a palavra e coube a Pedro, que era o mais velho e intrépido. Mas, ao terminar a mensagem, ninguém o teve por especial, antes se dirigiram a todos com a expressão: “Que faremos varões irmãos?”. Dirigiram-se a toda a igreja e não apenas a Pedro (Atos dos Apóstolos, II, 37)”.

Aqui são três mentiras.

Como já provamos, as chaves não podem representar o que a miopia protestante alega. Quanto à pregação de Pedro em Pentecostes, ele nada mais fez do que exercer sua missão de pregar, ensinando todas as gentes (S. Mateus, XXVIII, 19). Missão que Cristo confiou aos seus apóstolos, e estes, por sua vez, confiaram a outras pessoas para que colaborassem na obra de evangelização.

Os próprios leigos, mesmo não possuindo as chaves de S. Pedro, podem ensinar o Evangelho de Nosso Senhor, sem modificá-lo à moda protestante, contribuindo efetivamente para a conversão dos pecadores. Mas não é por que alguém simplesmente comunica a verdadeira doutrina de Cristo que se pode dizer: “Grande é meu poder! Eu tenho as chaves do Reino dos céus! Tudo o que eu ligo na terra é ligado no Céu!”.

A segunda mentira é relacionar a preeminência de Pedro, como porta-voz dos apóstolos, como conseqüência de sua idade mais avançada. Pedro, por ser o mais velho, falava por todos.

Mas não dizem os protestantes que só vale o que está escrito na Bíblia? Então, como sabem que Pedro era o mais velho, se esta informação não consta nela?

Muito mais seguro que um chute protestante do século XXI é o testemunho de Santo Epifânio no século IV, que nos garante que era Santo André, e não São Pedro, o mais velho.

Outra prova da imprecisão desse argumento se comprova pela posição que São João assume na lista dos apóstolos. Se São Pedro ocupa o primeiro lugar porque é o mais velho, o que não é verdade, necessariamente, São João deveria sempre aparecer em último lugar por ser o mais novo, mas não é o que ocorre.

Por ser o mais intrépido São Pedro falava pelos demais, afirma o protestante.

Por acaso o mais intrépido abandonaria Cristo no Calvário, negando-o por três vezes diante de uma criada? Dos apóstolos, quem permaneceu intrépido junto a Cristo no calvário foi São João. Portanto, deveria ser ele o porta-voz dos apóstolos.

Note, caro Moisés, que o protestante nem ler a Bíblia sabe. Julga-se tão versado nas Sagradas Letras e não é capaz de perceber fatos óbvios. E isso fica evidente quando ele tenta justificar a preponderância de S. Pedro, que sempre ocupa o primeiro lugar na lista de nomes, como sendo de caráter cronológico. S. Pedro seria sempre o primeiro na ordem dos nomes porque seguiu o Mestre antes dos demais. 

A Bíblia não diz isso.

Dos dois apóstolos, foi André o primeiro a seguir o Mestre.

"E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido. Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo)" (S. João I, 36-41)

No Evangelho de S. Marcos, S. André e S. Pedro são chamados simultaneamente, fato que também exclui a suposta ordem cronológica. Sendo assim, S. Pedro não poderia encabeçar a ordem numérica, uma vez que não foi o primeiro a seguir Nosso Senhor. Caso São Mateus quisesse referir-se à cronologia da vocação, não teria dito no singular: “o primeiro Simão, chamado Pedro”, mas no plural: “os primeiros Pedro e André”.

Não é por questão cronológica que S. Pedro assume o topo da lista ou fala pelo colégio apostólico. É como superior que ele ocupa o primeiro lugar e fala por todos.

Outro argumento pífio, na tentativa de minimizar a superioridade de São Pedro, vem, a propósito, confirmar sua posição de chefe dos apóstolos.

Diz o protestante que S. Pedro não foi reconhecido como chefe no dia de Pentecostes. E ele assim conclui porque os que estavam presentes, após ouvirem a pregação de S. Pedro, se dirigiram a todos os apóstolos, e não a ele somente.

Fantástico! São Pedro não é o único a receber a pergunta e disso se julga liquidado seu primado.

Por acaso sabiam os estrangeiros que S. Pedro era o pastor supremo do rebanho de Nosso Senhor?

Estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes: "Partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas de Cirene” (Atos, II, 9-11), a maioria estrangeira. Não seria uma razão para se dirigirem a todos os apóstolos? E se não falaram diretamente a S. Pedro, nada têm a ver com seu primado.  

Imaginemos que o líder de uma embaixada real anuncia aos presentes: “Aqui estamos como representantes do rei”. Perguntam os presentes: “O que desejais senhores?”. Daí se segue que não há mais um superior, porque a pergunta foi direcionada a todos, e não somente ao líder da embaixada real.

Como eu disse, a objeção vem confirmar o primado de São Pedro. Embora a pergunta seja direcionada aos onze, é Pedro somente quem retorna a resposta: "Pedro lhes respondeu: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo" (Atos, II, 38) E por fim: "Os que receberam a sua palavra [de Pedro somente] foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos" (Atos, II, 41).

No dia de Pentecostes é Pedro quem prega, quem responde, quem converte três mil de uma só vez. Mais uma prova clara de seu primado.

Evasivamente o protestante cita um trecho da Epístola de S. Paulo aos Gálatas, no qual, e pela única vez, Pedro aparece em segundo: “Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas..." (Gálatas, II, 9).

Veja como funciona a malícia protestante, caro Moisés. Quando S. Pedro aparece unânime em primeiro, o motivo é cronológico. Mas quando aparece uma única vez em segundo, a mesma interpretação é rejeitada. Se o argumento cronológico fosse válido, também nesse caso Pedro deveria ser o primeiro.

Sobre essa questão, explica o Padre Leonel Franca: “A preferência dada aqui a Tiago explica-se naturalmente pelo alto preço em que o tinham os judaizantes que do nome do bispo de Jerusalém tanto abusavam contra a autoridade de Paulo. Para confutá-los frisa aqui S. Paulo, como por Tiago, também por Tiago, primeiramente por Tiago fora reconhecido por apóstolo legítimo” (A Igreja, a Reforma, e a Civilização. 2ª ed. Rio e Janeiro: Livraria Católica, 1928, p. 51).
 
Como se já não bastasse a terrível deturpação de textos sagrados, o pobre desafiador do papado ousa, com seus plágios levianos, desvirtuar a tradição que testemunha a favor do primado de S. Pedro. Neste intento, ele recorre a citações extraídas de um site ortodoxo que, por ser cismático, também se opõe à supremacia do Papa sobre os bispos. Porém, para a infelicidade do protestante, o site se aventurou justamente onde os testemunhos são unânimes em reconhecer a soberania do Papa.

Primeiro cita Orígenes: “Para a Igreja una e indivisa, a interpretação desta passagem do evangelho é toda outra. Como disse Orígenes (fonte comum da Tradição patrística da exegese), Jesus responde com estas palavras à confissão de Pedro: este se torna a pedra sobre a qual será fundada a Igreja porque exprimiu a fé verdadeira na divindade de Cristo. E Orígenes comenta: Se nós dissermos também: Tu és o Cristo, Filho de Deus Vivo, então tornamo-nos também em um Pedro [...] porque quem quer que seja que se una a Cristo torna-se pedra”.

Pretender solapar o primado com base em Orígenes é violentar, sem piedade, seus escritos. O site cismático, do qual se serve o protestante, não mencionou, por exemplo, o seguinte texto de Orígenes: “E Pedro, sobre quem a Igreja de Cristo foi edificada, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão. [...]” (In Joan. T.5 n.3).  

Este também foi omitido: “Olha o que o Senhor diz para o grande fundamento da Igreja, aquela pedra solidíssima sobre a qual Cristo fundou sua Igreja...” (apud Franca, Leonel. A Igreja, a Reforma e a Civilização. Rio de Janeiro: Livraria Católica, 1928, p. 531).

Ora, se o protestante afirma que Pedro não é a pedra sobre a qual Cristo edificou sua Igreja, como ele recorre a Orígenes, que diz ser Pedro o grande fundamento da Igreja?

Cegamente o protestante foi à procura de quem lhe é contra.

Nem mesmo São Cipriano e São Gregório foram poupados das distorções cismáticas e luteranas que, de mãos unidas, vomitam mentiras contra o papado.

“São Cipriano de Cartago pôde afirmar que a fé de Pedro pertencia ao bispo de cada Igreja local, enquanto São Gregório de Nissa escreveu que Jesus ‘deu aos bispos, por intermédio de Pedro, as chaves das honras do céu’. A sucessão de Pedro existe onde a fé justa e ortodoxa é preservada e não pode, então, ser localizada geograficamente, nem monopolizada por uma só Igreja e tampouco por um só indivíduo”.

A citação foi de tal modo desfigurada que o protestante trocou o termo “Sé” por “fé”. Ora, é óbvio que os Bispos unidos a Pedro possuem a mesma fé que ele, pois como disse Nosso Senhor: “há uma só fé” (Ef. IV, 5). O que o protestante esquece, ou omite, é que Cristo roga por Pedro somente, para que a sua fé não desfaleça. E ele, por sua vez, confirma os irmãos.

O delírio protestante vai além. Ele diz que a sucessão de Pedro existe onde a fé justa e ortodoxa é preservada. Ora, então todos que têm fé ortodoxa são papas? Desta forma, cai-se no absurdo protestante de que cada fiel é Papa infalível, dispensando qualquer mediação. Não precisaríamos nem de apóstolos para ensinar, e muito menos de pretensos teólogos para nos corrigir. Cada qual seguiria a própria inspiração divina.

Mais uma contradição, caro Moisés. O protestante que se opõe ao Papa, afirma que todos são papas. Mas negando que todos são papas, quer nos ensinar como se fosse o único Papa.

Para recuperarmos a verdadeira identidade de São Cipriano, que não é protestante e nem cismática, bastam-nos dois textos, através dos quais ele proclama plena adesão à supremacia da Sé de Pedro:

“A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal” (Epístola LV, 14).

“No entanto, Pedro, sobre o qual a Igreja foi edificada, pelo mesmo Senhor, falando por todos, e respondendo com a voz da Igreja, diz: ‘Senhor, para onde havemos de ir? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós cremos que tu és o Cristo, filho de Deus vivo.” (Epist. LIV, a Cornelius, n.7).

Esse é o verdadeiro S. Cipriano, sem desfigurações heréticas ou cismáticas.

São Gregório Nissa também não foi poupado das garras luteranas.Tanto o site ortodoxo, quanto o protestante, sequer mencionam a fonte da citação.

São Gregório jamais se levantou contra o Primado de Pedro. Pelo contrário, defendeu o mesmo:

“A memória de Pedro que é a cabeça dos Apóstolos é celebrada e junto com ele [Pedro] os outros membros da Igreja são glorificados, e a Igreja de Deus [no próprio] é consolidada. Este, juntamente à prerrogativa concedida a ele pelo Senhor é pedra firme e solidíssima sobre a qual o Senhor fundou sua Igreja” (apud Franca, Leonel, 1928, p. 531).

Fiel às suas consultas virtuais cismáticas, o protestante alega uma igualdade jurisdicional entre a Igreja de Roma e as Igrejas de Alexandria e Antioquia, baseado em um Cânone do Concílio de Nicéia.

Que Pedro foi para Roma e lá fundou a Igreja que presidiria todas as outras, provamos em nossa resposta ao pretenso doutor. Sobre o tal cânon de Nicéia, faremos alguns comentários reparadores.   

Em seu exame canônico, o protestante conclui que o Cânone do “6º Concílio de Nicéia” reconhece um prestígio excepcional às Igrejas de Alexandria, Antioquia e Roma, não por terem sido fundadas por apóstolos, mas por serem as cidades mais importantes do Império Romano.

Primeiro: não é o 6º Concílio de Nicéia que trata desse assunto, mas o Cânon 6, do primeiro Concílio de Nicéia (325 d.C). Segundo: O Cânon não diz nada disso.

Em favor da supremacia da Igreja de Roma, podemos citar, por exemplo, a carta de Santo Inácio de Antioquia aos Romanos:

“... à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada ‘feliz’, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai...”.

Seguindo a voz da tradição, Santo Irineu também cantou glórias à Igreja de Roma:

“Já que seria demasiado longo enumerar os sucessores dos Apóstolos em todas as comunidades, ocupar-nos-emos somente com uma destas: a maior e a mais antiga, conhecida por todos, fundada e constituída pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo. Mostraremos que a tradição apostólica que ela guarda e a fé que ela comunicou aos homens chegaram até nós através da sucessão regular dos bispos, confundindo assim todos aqueles que querem procurar a verdade onde ela não pode ser encontrada. Com esta comunidade, de fato, dada a sua autoridade superior, é necessário que esteja de acordo toda a comunidade, isto é, os fiéis do mundo inteiro; nela sempre foi conservada a tradição dos apóstolos” (+202, Contra as Heresias III, 3,2).

A lista de testemunhos iria longe.

Sobre o Cânon 6 do Concílio de Nicéia, ele nada tem a ver com o Primado de S. Pedro, que naquele tempo não era por ninguém contestado. Este Cânon trata das divisões administrativas dos patriarcados, nos seguintes termos: “Conservem-se os antigos usos vigentes no Egito, na Líbia e na Pentápolis, que o bispo de Alexandria conserve o seu poder sobre todas estas regiões como costuma o bispo de Roma. Outrossim em Antioquia e nas outras províncias conservem as igrejas os seus privilégios, dignidade e autoridade”.

E que este Cânon de modo algum fere a supremacia da Sede romana explica o Padre Leonel Franca com cinco razões claríssimas:

 “1º de o haverem aprovado os legados pontifícios que presidiam ao concílio; 2º de não existir nesta época, nem no Oriente, nem no ocidente, a menor dúvida sobre a supremacia jurisdicional do Papa; 3º de o haver citado e alegado contra as ambições de Constantinopla o papa S. Leão, zelantíssimo defensor dos direitos divinos da Sé de S. Pedro; 4º de não lhe haver dado este sentido toda a antiguidade que nos séculos imediatos ao concílio nunca apelou para ele contra ‘as usurpações crescentes’ de Roma” (A Igreja, A Reforma e a Civilização, 1928, p. 119-120).

O protestante é tão desorientado em suas consultas que nem mesmo averigua a veracidade dos textos que colhe pela internet. Se o autor mente, ele simplesmente reproduz a mentira.

Retomando suas peripécias bíblicas, argumenta ele que as ordens “apascentar” e “confirmar”, direcionadas exclusivamente à pessoa de Pedro, não significam primazia jurisdicional, pois todos os bispos confirmavam e apascentavam suas respectivas Igrejas.

Que os bispos apascentam e confirmam suas Igrejas jamais se contestou. Revestidos de legítima jurisdição episcopal, eles sempre governaram parcelas do rebanho de Cristo. E até hoje é assim: o pastoreio local dos bispos se mantém sob o governo supremo do Papa.

Na Igreja todos os bispos são pastores. Porém, há pastores e pastor. Pastores os apóstolos, pastor S. Pedro. Este, o pastor supremo. Aqueles, os pastores subordinados. Só a S. Pedro e a nenhum outro apóstolo, disse Cristo, sem restrição alguma: “Apascentas os meus cordeiros e as minhas ovelhas”. Só a Pedro prometeu Cristo e conferiu a investidura do primado. Aos outros, só reunidos e com Pedro, investiu-os da jurisdição apostólica.

Pedro é então o Bispo dos Bispos. O pastor supremo que recebeu de Nosso Senhor as chaves para apascentar e confirmar toda a Igreja, incluindo os bispos e seus rebanhos.

Veja, por isso, quão ridícula é a interpretação protestante. Por ela poder-se-ia negar até mesmo a atual presidência da república. Como os prefeitos e os governadores dos estados também governam, concluiria ele que não há um poder que lhes seja superior.

Estupendo! Todos governam e por isso não há um chefe maior.  É realmente uma lógica típica de protestante.

Prosseguindo em seus devaneios, afirma ele que Pedro não exercia nenhum governo soberano, porque simplesmente teve que dar explicações por ter se misturado e comido com os pagãos.

Ora, não são os católicos que estão questionando o Papa, mas os judeus que, naquela época, não aceitavam a participação de gentios no povo escolhido. Entretanto, Pedro, ao encerrar sua pregação, resolve a questão e os converte:
"Depois de terem ouvido essas palavras, eles se calaram e deram glória a Deus” (Atos, XI, 18).

É Pedro quem explica! É Pedro quem resolve! É Pedro quem converte!

E Viva o Papa!

Quanto à escolha do sucessor de Judas Iscariotes, não hesita em apontar que Pedro somente expôs o problema, sendo Matias eleito por voto comum.

Como eu lhe disse, caro Moisés, nem ler a Bíblia ele sabe.

Pedro não fez uma mera exposição do problema, recordando a necessidade de um sucessor para o cargo de Judas. Como Papa, Pedro impõe o dever de se escolher um sucessor para Judas. E invocar a colaboração de seus súditos, em nada lhe diminuiu a autoridade. Um diretor pode muito bem pedir auxílio de seus subordinados para determinadas decisões. Isto é tão comum que só um protestante obstinado para ver nisto uma negação de qualquer superioridade de um sobre outros.

Cego de tanto ódio, diz o protestante que Cristo teria rechaçado qualquer hipótese de um primado de Pedro sobre os demais apóstolos, ao adverti-los nos seguintes termos:

“Os reis dos gentios dominam sobre eles e os que têm sobre eles autoridade chamam-se benfeitores. Não há de ser, porém, assim entre vós outros; mas o que entre vós é o maior faça-se como o mais pequeno e o que governa seja como o que serve. Porque qual é o maior, o que está sentado à mesa ou o que serve? Não é o maior o que está sentado à mesa? Pois eu estou no meio de vós outros assim como o que serve (S. Lucas, XXII, 25-27).

Em hipótese alguma está Cristo negando o governo soberano de Pedro. A própria indagação dos discípulos exclui a tola crença protestante de que havia entre eles um consenso de igualdade: "Quem é o maior no Reino dos céus?" (S. Mateus, XVIII,1).

Diante dessa disputa de poder, o que fez Nosso Senhor? Repreendeu seus discípulos a não imitar os pagãos que, cheios de ambição, procuram ser grandes para dominar os outros com soberba. Ensinou-lhes a humildade, dando Ele mesmo o exemplo.

Cristo não estava censurando a idéia de um superior entre os apóstolos. E isso fica claro nas palavras que seguem: “O QUE ENTRE VÓS É O MAIOR faça-se como o mais pequeno e O QUE GOVERNA seja como o que serve”.

Pedro, que era o maior, deveria ser o mais humilde, sendo aquele que mais serve e dá a vida por suas ovelhas: "O maior dentre vós será vosso servo" (S. Mateus, XXIII,11).

Com isso ensina Cristo que o chefe deveria ser o maior não só na autoridade e no governo, mas na humildade, dando o exemplo para seus subordinados.

E que Pedro seguiu o conselho do Mestre se vê na sua primeira Epístola:

“Esta é, pois, a rogativa que eu faço aos presbíteros que há entre vós, eu PRESBÍTERO como eles e testemunha das penas que padeceu Cristo” (1ª Epístola de S. Pedro, V-1).

Aqui não há nenhuma negação de superioridade, como pensa o protestante. Se Pedro se diz presbítero como os demais sacerdotes, é para consolá-los, indicando-lhes o caminho da humildade e obediência.

Ressaltando o ridículo da objeção, imaginemos a seguinte cena. Um General se dirige aos seus soldados com as seguintes palavras: “Soldado como vós, solicito o vosso empenho na defesa de nossa Pátria”. Então, brada o protestante: “Estão vendo? Eu estava certo! Ele não é general coisa nenhuma, porque ele mesmo se declara soldado”.

Por essa ele bem merecia ganhar o prêmio Nobel dos tolos.

Quem é general é também soldado, pois a dignidade maior inclui as atribuições da menor. Pedro, que era chefe dos Apóstolos, tinha todos os direitos, poderes e privilégios de um simples presbítero.

Ele recorda que Pedro foi enviado pelos apóstolos em missão à Samaria. Daí conclui que, se Pedro era o chefe, não poderia ser mandado pelos seus subordinados. Logo, é falso seu primado.

Objeção fraca.  
Pode-se enviar alguém mandando, aconselhando ou mesmo suplicando. Um exército, por exemplo, pode enviar seu general a um determinado lugar por súplica ou conselho. Basta saber a quem mais competem determinadas missões.
Ora, para confirmar na fé os recém convertidos, nada mais conveniente do que enviar (no sentido de escolher o mais preparado e não no sentido de ordenar) a autoridade máxima da Igreja. E foi o que aconteceu: Pedro impõe as mãos sobre os samaritanos e condena o herege simoníaco, que pretende comprar os dons de Deus. 
Reconhecendo a autoridade de São Pedro, os apóstolos o enviam à Samaria.

E viva o Papa que confirma os irmãos na fé!

Dando um pouco de paz à Bíblia, que é violentada pela tirania protestante, o inimigo do papado recorre à tradição a fim de consolidar sua negação do primado:

“Dos inúmeros pais da Igreja, somente 77 opinaram a respeito do assunto de Mateus 16.18, sendo que 44 reconheceram ser a fé de Pedro a rocha. Os outros 16 julgaram ser o próprio Cristo e somente 17 concordaram com a tese vaticana. Nenhum deles afirmou a infalibilidade de Pedro e tampouco o tinham como papa. Exemplo disso é Santo Agostinho que, em uma de suas obras,13 expressamente afirmam que sempre, salvo uma vez, ele havia explicado as palavras sobre esta pedra — não como se referissem à pessoa de Pedro, mas sim a Cristo, cuja divindade Pedro havia reconhecido e proclamado”.

É uma pena que o protestante só nos informe números, sem mencionar os nomes dos 44 que supostamente não reconheceram Pedro como pedra de fundamento da Igreja. Apenas Santo Agostinho é citado. Os demais permaneceram no anonimato.

Da lista protestante, somente 17 teriam se pronunciado a favor da interpretação católica.

Para desmascararmos esse argumento, que não passa de mais uma manipulação de dados históricos, relacionaremos 35 nomes que proclamam em voz alta o primado de São Pedro:

1)  Tertuliano                                                                     18) S. Cipriano                                    
2)  S. Ambrósio                                                                 19) S. Jerônimo                                    
3)  S. Optato de Milévio                                                    20) Macedônio, patriarca de Constantinopla 
4)  S. Hilário                                                                       21) João VI, patriarca de Constantinopla      
5)  S. Zenão de Verona                                                    22) S. Próspero de Aquitânia                     
6)  S. Basílio                                                                       23) S. Gregório de Nazianzeno                      
7) S. Gregório Nisseno                                                    24) S. Cirilo de Alexandria
8)  Teofilacto,                                                                      25) S. Crisóstomo
9)  S. Afraates                                                                     26) Eusébio de Cesaréia
10) Macário de Magnésia                                                27) S. Agostinho
11) Proclo, bispo de Constantinopla                            28) S. Máximo
12) Gaudêncio, bispo de Bréscia                                  29) S. Nicéforo           
13) Firmiliano de Cesaréia.                                            30) S. Leão Magno
14) S. Cirilo de Jerusalém                                              31) Orígenes
15) Cassiano Contra Nestorium                                   32)  S. Epifânio       
16) S. Máximo de Turim                                                   33)  S. Nilo
17) Astério de Amaséia                                                   34)  S. Efrém   
                                                                                              35)  Vitorino     

De 17 para 35 temos uma diferença de 18 testemunhos astutamente camuflados pela fraude protestante. Isso sem mencionarmos os Concílios de Éfeso, Calcedônia, Nicéia, Lião, Constança e Florença que proclamam unânimes o primado de São Pedro.

Embora alguns Santos Padres tenham desenvolvido outros sentidos para Mateus 16,18, sem negar a interpretação literal, na antiguidade cristã não existe um só testemunho contra o primado de Pedro. E quem nos garante isso é o insuspeito Loisy:

“Semelhantes interpretações poderão ter sido propostas pelos antigos comentadores em vista das aplicações morais e relevadas pela exegese protestante com interesse polêmico. Mas se quisermos transformá-las em sentido histórico do Evangelho, não passam de distinções nulas que fazem violência ao texto” (apud Pe. Leonel Franca. Catolicismo e Protestantismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Agir. 1952, p. 36).

Para encerrar o show de distorções, mutilações e fraudes, o protestante não tem nem a vergonha de afirmar que São Clemente nada mencionou sobre a permanência e morte de S. Pedro em Roma.

Deixemos as fraudes e vamos à carta de S. Clemente aos Corinthios:

“A estes santos varões [S. Pedro e S. Paulo] que ensinavam a santidade se associou grande multidão de eleitos que supliciados e atormentados pelo ódio foram entre nós [os romanos] de optimo exemplo” (apud Pe. Leonel Franca. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Livraria Catholica, 1928, p. 70).

Nesse trecho da carta de S. Clemente há uma referência à perseguição de Nero, em que, juntamente com Pedro e Paulo, foi martirizado um grande número de cristãos. E este martírio foi, entre romanos, um ótimo exemplo.

Está aí um claro indício de que Pedro morreu em Roma.

Alude ainda que Santo Inácio de Antioquia não fez nenhuma menção a Pedro como líder da Igreja de Roma.

O pobre protestante quis tapar um imenso sol com uma simples peneirinha.

Santo Inácio fez muito mais do que mencionar a liderança de Pedro. O grande bispo de Antioquia reconhece que a Igreja de Roma tem a presidência sobre as demais:

“À Igreja amada e iluminada pela vontade d’Aquele que quer tudo o que é, segundo o amor de Jesus Cristo, nosso Deus (à Igreja), que preside também no lugar da região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de benção, digna de ser atendida, digna e casta; presidente do amor, de posse da lei de Cristo, decorada com o nome do Padre” (apud Pe. Leonel Franca. Catolicismo e Protestantismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Agir. 1952, p. 83-84).

Fechando com chave de ouro, completa o santo mártir:

Vós ensinastes as outras igrejas. E eu quero que permaneçam firmes às coisas que vós prescrevestes nos vossos ensinamentos” (apud Pe. Leonel Franca, 1952, p. 85).

Em termos refulgentes, Santo Inácio reconhece que a Igreja de Roma ensina as outras Igrejas com autoridade de magistério e de jurisdição. E esta soberania de Roma sobre as demais igrejas só pode ter origem naquele que é o legítimo sucessor de S. Pedro.

Nem é preciso recorrer aos inúmeros testemunhos que comprovam irrefutavelmente a presença de Pedro em Roma. A própria Bíblia, que os protestantes insistem em violentar, nos fornece esse dado precioso.

Em sua primeira epístola, Pedro menciona que estava Roma, juntamente com Marcos, seu discípulo: "A igreja escolhida de Babilônia saúda-vos, assim como também Marcos, meu filho" (I S. Pedro, V, 13). Nesta época, Roma era designada por Babilônia, o que indica que Pedro estava em Roma.

O que faz o protestante contra essa prova bíblica? À moda Lutero, desqualifica o livro sagrado. É muito fácil: se um trecho ou livro da Sagrada Escritura o contraria, nega o seu valor. A Bíblia é tratada como se fosse seu brinquedinho pessoal. Quando não lhe agrada mais, ele simplesmente a descarta.

E por que estou dizendo isso, caro Moisés? Por que não tendo outra saída, o protestante não hesita em atentar contra a autoridade da própria Bíblia, preferindo crer em alguns que opinam não ser Pedro o autor de sua epístola.

Afinal, o que pretende esse protestante? Quer ele negar a todo custo a primazia de Pedro ou quer ele nos persuadir de que a Bíblia contém informações falsas, como crêem alguns céticos?  

Na investida contra o primado vale tudo, até mesmo negar a infalibilidade da palavra de Deus.

Nós, católicos, preferimos confiar na Palavra de Deus e nos inúmeros testemunhos que proclamam a primazia de Pedro e a sua incontestável presença e morte em Roma.

A Sagrada Escritura e a tradição valem muito mais do que a crença de alguns.

Se a epístola de S. Pedro foi desvalorizada pelo crivo luterano, os testemunhos patrísticos foram simplesmente reduzidos a meras manipulações da Igreja romana. Nem a Epístola de Pedro, nem os inúmeros testemunhos, e nem mesmo as descobertas arqueológicas são satisfatórias ao exigente protestante.

Primeiramente ele recorre aos escritos dos padres da Igreja (São Clemente, Santo Inácio, São Cipriano, São Gregório de Nissa, Santo Agostinho, etc.), a fim de corroborar suas interpretações anti-papa. Quando os testemunhos supostamente o favorecem, ele não nega a veracidade histórica, nem ousa levantar suspeitas de manipulação por parte da Igreja de Roma.

Entretanto, quando os escritos convergem para o primado, eles não passam de manipulação da Igreja. E para dar um certo peso a essa calúnia, recorre-se ao respaldo de certos estudiosos que, novamente, ficam no anonimato.

Mas quem são esses estudiosos? Merecem eles confiança? Que argumento aduzem para desqualificar tantos testemunhos, incluindo Concílios e até mesmo descobertas arqueológicas?

Existem estudiosos que dizem exatamente o contrário.

Harnack:

“O martírio de S. Pedro em Roma foi, tempos atrás, combatido por preconceitos tendenciosos de protestantes e críticos... Mas, que fosse erro, é claro para qualquer estudioso que não queira fechar os olhos” (Die Chronologie der altchristlichen Literatur, Leipzig, 1897; t. I, P. 244 apud Leonel Franca. Polêmicas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1953, p. 354).
R. Lanciani, um dos maiores estudiosos e conhecedores da Roma antiga:
“Não há acontecimento da época imperial... atestado por tantos monumentos convergentes todos para a mesma conclusão, como a presença e o martírio dos apóstolos na capital do império”. (Pagan and Christian Rome, London, Macmillan, 1892, p. 125. Apud, op. cit.).

E. M. D’Herbigny:

“Só por ódio fanático contra a Igreja católica ainda hoje alguns ateus e propagandistas acatólicos difundem entre o vulgo a negação [da estada de S. Pedro em Roma]; ou ignoram pasmosamente a verdade histórica, ou conscientemente a impugnam”. (De Ecclesia, Paris, Beauchesne, 1921, t. II (2), p.195 apud Pe. Leonel Franca. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 7ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1958, p. 93).

Whirston:

“Que São Pedro esteve em Roma é tão claro na antiguidade cristã, que um protestante se sente vexado ao ter de confessar que houve protestantes que o negaram” (Memoirs apud Bertrand Conway. Caixa de Perguntas. Lisboa: União Gráfica Lisboa, 1961, p. 304).

Até mesmo um protestante (Von Starck), bem mais sincero e inteligente, reconheceu que:

“Em favor da primazia do episcopado de S. Pedro em Roma temos o testemunho de toda a antiguidade cristã desde Papias e Irineu que viveram ambos no segundo século e dos quais o primeiro era discípulo de São João” (apud Pe. Leonel Franca. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 82).

Como reduzir a meras manipulações da Igreja romana os bronzes, os mármores, as pedras e os afrescos, que demonstram, irrefutavelmente, o episcopado do príncipe dos apóstolos na Roma eterna?

Falsificações, mutilações, omissões, distorções e mentiras são os frutos podres do protestantismo.

O autor desse mísero texto seguiu bem o conselho de seu mentor: "Que mal pode causar se um homem diz uma boa e grossa mentira por uma causa meritória e para o bem da Igreja [luterana]" (Martinho Lutero).

E como mentiu...

Espero tê-lo ajudado contra as insídias do protestantismo. Em breve publicarei as refutações contra o segundo texto que trata sobre as imagens católicas.

In Jesu et Maria, semper
Eder Silva
 
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Nota

"SOBRE OS DIREITOS E DEVERES DOS LEIGOS CATÓLICOS"
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